jump to navigation

Culpa 5 dezembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in rafael waltrick, vingança.
Tags: ,
2 comments

Duas doses de uisque e três cubos de gelo.

Deveria ser o suficiente pra me fazer dormir. Mas não hoje.

Ainda estou com a gravata e a camisa de linho que usei no julgamento. A gravata aperta meu pescoço, me sufoca. Em silêncio, estirado na poltrona, o único móvel nessa sala úmida, eu relembro cada instante, cada palavra, cada argumentação, até a decisão final do juiz. O gosto amargo ainda está em minha boca e nem o uísque é capaz de amenizar o sabor repulsivo que eu sinto, impregnado em meu corpo.

A uma hora dessas, o verme deve estar festejando, bebendo e fumando erva às custas da impunidade, com seus amigos vindos direto do esgoto dessa cidade nojenta. Eu sei onde eles se escondem, onde se entregam às mais desprezíveis violações, longe dos olhos da dita sociedade moralista. Eu estive lá antes. Eu vi.

O verme não perde por esperar.

*

Astolfo segura o jornal na mão, os olhos concentrados na página em preto e branco. Ele olha para as linhas datilografadas, levanta os olhos para mim, volta a ler. Eu o ignoro, sentado em minha mesa, preenchendo alguns papéis.

“Você viu isso, Mendonza?”, pergunta.

“Eu não leio jornal.”

“Pois devia. Tem uma foto do teu amigo aqui. Feliz da vida. Saiu pela porta da frente. Que merda, hein?”

“Eu estava lá.”

“Ah, sim, imaginei. Você não ia perder nisso por nada desse mundo, né?”

Ele levanta, pega a caneca onde está escrito FLAMENGUISTA NOTA DEZ e passa por mim, dando um tapinha leve em meu ombro esquerdo. Joga o jornal em minha mesa.

“Relaxa. Isso acontece todo dia. A gente faz o que pode. Mas o que adianta se os putos resolvem mostrar que todo mundo é inocente até que se prove o contrário? Inocente é uma ova. Sistema do caralho.”

Astolfo discursa como se isso tudo realmente tivesse importância pra ele. Eu tenho asco de sua voz, de sua cara, embora nós dois tenhamos sido parceiros por quase dez anos. Ele está quase se aposentando e nada disso mais importa. Ninguém aqui sabe. Ninguém aqui a viu, naquela manhã, quando eu cheguei na beira do rio. Quando eu fechei seus olhos cheios de desespero com a mão. Ninguém sentiu o cheiro da decomposição vindo de seus braços, suas pernas, seu corpo ainda em formação. Não foram eles que bateram na porta da casa dos pais para dar a notícia.

O dia segue sem alterações até a noite. Cinco minutos antes de eu ir embora, um repórter liga dizendo que está fazendo a “ronda” e pergunta se houve alguma ocorrência de destaque. Eu não me dou ao trabalho de responder.

Malditos abutres.

Dirijo sem rumo por algumas horas, os faróis iluminando a escória nas ruas, ansiando por drogas e sexo barato. Algumas das putas abanam para mim, esperançosas de que eu as leve dali, pelo menos por algumas horas. Mas não hoje.

Antes de ir dormir, eu passo na frente da casa do verme. Estaciono o carro a alguns metros e fico apenas observando. A luz do quarto ainda está acesa. Repouso a mão no coldre debaixo de meu casaco.

Ainda não.

*

Melissa me recebe com um sorriso sincero no rosto e me convida pra entrar. Eu devia ter trazido um presente, como sempre. Ela parece não notar o meu deslize e busca um suco de laranja na geladeira, enquanto eu aguardo sentado no sofá da sala. Eles estão terminando de reformar o apartamento. O rapaz não está. Ela volta com meu suco.

“Que pena. O Bruno acabou de sair. Dias desses ainda estava falando como fazia tempo que não te via, Carlos. Cinco minutos e vocês ainda se topavam por aqui.”

“É uma pena mesmo. Mande um abraço pra ele.”

Eu o vi sair e embarcar na moto, em frente ao prédio. Estava ali, no meu carro, há meia hora. Acho que Melissa sabe que eu sempre faço isso, mas não comenta nada. Ela me conhece.

“Tem falado com a mamãe? Ela esteve aqui anteontem. Me ajudou a escolher umas cores pro quarto.”

“Não. Como estão as coisas na faculdade?”, desconverso.

“Ah, indo né. Só vão me pagar bem mesmo a hora que eu terminar a pós. Enquanto isso, vou praticamente pagando pra trabalhar. Mas, é o jeito. Logo as coisas se arrumam. O Bruno foi promovido na concessionária, te contei?”

“Sim.”

Eu fico ali mais dez minutos, até o suco acabar, conversando amenidades. Melissa está bela como sempre, os fios de cabelo caindo sobre os ombros, pretos como os que eu tinha antigamente. Me despeço, com a promessa de que marcaremos um jantar com seu noivo.

Às vezes, eu gostaria que ela me chamasse de pai.

*

Normalmente, nos dias de folga eu vou ao cinema ou passo o dia com alguma puta no quarto que eu alugo próximo ao porto. Mas hoje eu passo as horas em casa, na frente da televisão, apenas trocando de canal, com o som mudo. Penso em Carina. A pequena Carina.

Dentro de alguns dias, os jornais sequer se lembrarão que ela existiu. Na época, foi um circo, como sempre. Agora, ela já está enterrada, e seu assassino, ainda à solta. Mas você tentou, menina. Você tentou. Deu algum trabalho pra ele, enquanto o verme a levava barranco abaixo, no meio dos arbustos. Aposto que gritou e bateu nele, com todas as suas forças, antes que ele a silenciasse com a mãe, rasgasse seu vestidinho vermelho e branco e a violentasse. Você sequer deve ter entendido o que ele estava fazendo. Tão inocente.

Eu sei que tentou, pequena. Eu sei.

Adormeço e, no sonho, seguro ela em meus braços. Ela sorri e se aninha em meu colo, segura, livre de qualquer mal.   

*

A rotina na casa dos pais de Carina parece ter voltado ao normal, embora a dor ainda seja visível no rosto de sua mãe. Ela se levanta todo dia às seis e meia da manhã e fica sentada na cozinha por meia hora, sem comer nada, falar nada, fazer nada. Fica apenas ali, sentada. Aguardando o marido sair da cama para tomar café e ir trabalhar. Eu sei no que ela pensa.

A vontade que eu tenho é de sair do carro, bater na porta e sentar ao lado dela. Não iria dizer nada. Apenas acompanhá-la. Compartilhar sua dor. A dor que eu também sinto, desde que abro os meus olhos pela manhã, a cada minuto do dia. A cada vez que eu passo em frente à casa do verme. Se ela pudesse ver o que eu vejo, a satisfação presente no rosto do verme, a sua liberdade desmedida ao andar pela rua, sem pudor algum… Tenho certeza que ela me pediria pra fazer o que é o certo. Sim. Eu não preciso que ela me peça.

Eu sei no que ela pensa.

*

Lobo me chama na sua sala logo pela manhã, quando me vê entrar na DP.

“Senta aí, Mendonza.”, diz ele, apontando para a cadeira em frente à sua mesa. Eu me sento e cruzo os braços. Ela acende ainda um cigarro antes de olhar pra mim e se sentar também. Pela expressão no seu rosto, imagino qual será o tom da conversa.

“O que você faz fora dessa delegacia não é do interesse meu. Nem podia ser.”, começa. “Mas a partir do momento em que você se põe em risco e me compromete também, sou obrigado a intervir. Você sabe do que eu estou falando, não?”

Eu fico calado. A fumaça do cigarro sai por meio de baforadas apressadas dos dentes amarelados dele.

“Todo mundo aqui ficou puto com o resultado do julgamento daquele escroto. Mas nós dois, eu e você, Mendonza, já temos anos e anos de casa, e sabemos que é assim mesmo. Nós prendemos, a justiça manda soltar. Nós esfregamos as provas nas caras deles, eles dizem que elas são ‘inconsistentes’. Paciência. Eu não gosto disso. Sei que você também não. Mas o nosso trabalho termina aqui. Ou até que o dito inocente faça outra cagada e nos obrigue a provar que os fudidos dos juízes estavam errados mesmo. Mas, enquanto isso, o que podemos fazer é aceitar o que esses putos decidiram e deixar que os promotores ou quem quer que seja tentem convencê-los do contrário.”

Apenas concordo com a cabeça. Lobo olha pra mim com impaciência, como se esperasse que eu discutisse ou irrompesse em um ataque de fúria contra a injustiça cometida fora daqui. Minha indiferença o deixa mais nervoso ainda.

“Você é um dos melhores investigadores que eu tenho aqui nessa bagaça. Tem os seus problemas, mas quem não tem? Eu só não posso deixar que você continue com essa merda. Aparecendo todo santo dia na porra da casa do cara, de manhã, de noite, a hora que seja. E, além do mais, nem fazendo questão que ele não te veja! Que merda é essa?”

“Estou fazendo o meu trabalho, doutor.”

“O teu trabalho? Você tá louco, é isso? O teu trabalho é aqui dentro. E você não tem mais nada a ver com aquele puto. Se decidiram soltar o cara, não é problema nosso.”

“Ele é culpado. O senhor sabe disso. Ele vai fazer de novo. Eu sei que vai.”

Lobo abaixa a cabeça e passa as mãos pelo cabelo ralo. Respira fundo. O cigarro está no fim, quase queimando seus dedos, mas ele não nota.

“Escuta aqui, Mendonza. Eu sei que foi uma puta injustiça com a guria, com o teu trabalho. Mas você é um profissional. Não pode se envolver assim. Porra, eu nem precisava tá te falando isso! Que merda! O advogado dele me ligou ontem aqui dizendo que vai meter um processo contra a gente porque um policial está coagindo o cliente dele. Isso sem dizer nas outras merdas que eles já tinham engatilhado, danos morais, essas coisas todas. Agora, o cara vai comprar verdura no mercado e tá lá a porra do policial atrás. Vai na farmácia e o cara tá do outro lado da rua. Vai dormir e a merda do carro do policial tá estacionado na esquina! Caralho! Eu te proíbo de chegar perto desse puto, Mendonza! Filho da puta, cigarro do caralho!”

Lobo joga a bituca no chão mesmo, ao lado da mesa. Agita os dedos queimados. Levanta e dá as costas pra mim, olhando pela persiana para o pátio da delegacia.

Volta a me encarar.

“Se você não tá conseguindo lidar com essa situação, eu te dou uns dias de folga e você vai arejar a cabeça longe daqui. Sei lá, vai pra praia, se enfia no teu apartamento, mas se mantém longe daquele puto. Você tem vida própria, deve ter. Eu disse pra aquele advogado de porta de cadeia que ele e nem o cliente dele iam mais se incomodar. Entendeu?”

Eu faço que sim com a cabeça e, antes que ele possa dizer mais algo, me levanto e saio da sala, em silêncio.

*

“Fazia um bom tempo que a gente não se via, hein, querido?”

Rosana cheira a perfume barato, loção de babosa e vodka. Ela se joga no colchão manchado, em cima da cama, e desamarrra o laço que mantém os cabelos castanhos presos sobre a cabeça. A pele negra dela fica à mostra, encoberta apenas por uma mini saia minúscula e uma blusa regata. Pergunta se eu tenho alguma bebida pra oferecer. Eu digo que não.

“E o que você trouxe nessa bolsa aí, meu anjo?”

“Uma coisa pra você usar.”

Ela me encara com curiosidade, as mãos apoiadas no colchão, as pernas abertas, convidativas.

“Adoro quando você faz os seus joguinhos. Vem cá , vem, meu homem, vem. Só de te ver assim, de pé na minha frente, você já me deixa com tesão.”

Rosana senta à beira da cama e abre o zíper da minha calça. Meu pau some dentro de sua boca, enquanto ela usa as mãos para abaixar o jeans. Eu sinto nojo e aversão, mas deixo que ela cumpra seu papel, até que a afasto e faço com que deite na cama. Pego o conteúdo da bolsa e jogo na direção dela.

“Vista isso.”

“Humm… meio pequenas pra mim, não?”

“Vai logo.”

“Tá bom, tá bom.”

Ela veste o pequeno vestido com dificuldade, contrariada.

“Essa calcinha não vai entrar nunca… e não precisa também, né? Pronto. Não sabia que você gostava dessas coisas. Tá bom assim? Você quer que eu fale alguma coisa em especial também? Essa menininha é toda sua, querido.”

Eu tiro a calça e a cueca e avanço sobre ela. Rosana se agarra em mim e geme alto, enquanto eu meto nela. Enlaça as pernas em volta da minha cintura e agarra o meu pescoço.

“Nossa, isso, vai, mete, mete, forte, isso…”

Eu ignoro a voz dela e penso naquela noite, às margens do rio. O delicado vestinho vermelho e branco sendo rasgado, para que a inocência intocada daquela pequena criança fosse violada pelos desejos doentios do verme. Ele a subjuga e deita por cima dela, o membro duro invadindo o corpo de anjo. Ela grita, pede socorro, Rosana grita, chora, mas ninguém a ouve. Ninguém presta ajuda. Ela está sozinha. Sob o controle total do verme, que leva as mãos até o seu pescoço delicado e aperta, esgana, até a deixar sem ar,

Pobre menina. O verme continua a saciar sua vontade, no corpo já sem vida. Instantes depois, ele pega o que restou da criança e a joga no rio, bastante cheio àquela época do ano. Some. Ninguém o vê sair. Volta para casa, crente de que irá permanecer impune.

Mas não vai. Não, pequena, ele não vai.

Saio do apartamento e deixo Rosana para trás. Não me preocupo em trancar a porta. Quando a acharem, não vai importar mais.

*

O verme me vê entrar pelo corredor e eu tenho que disparar um tiro pra impedir que ele corra até os fundos. Eu o atingo na coxa direita e ele se joga de encontro à parede, batendo com a cara na divisória de compensado. Os seus gritos ecoam pela casa, saindo pela janela aberta do quarto. Eu não me preocupo em ser discreto. Agarro seu colarinho e o levo até a cozinha, arrastado. O verme tenta se agarrar aos móveis, em vão. Berra como o porco imundo que sabe que está sendo levado para o abate.

“O que você quer? Me solta, me solta, ME SOOOOOOOOOLTAAAAAA!!!”

“Cala a boca, verme.”

Eu o encosto contra a pia e miro o revólver calibre 32 contra a sua cabeça. Ele chora, virando o rosto para o lado.

“Você achou que ia se dar bem, não é verme?”

“Que merda você tá falando? Escuta, eu sou inocente, não tenho nada a ver com aquela menina… você não pode fazer isso, não pode…”

O sangue salta contra a portinhola branca quando eu o atinjo com o cano da arma na testa. Escuto o som das freadas na frente da casa, as sirenes e os passos apressados. Eles chegaram rápido.

Melhor assim.

“Não me mata, por favor, não, não, não…”

“Tarde demais, verme.”

A porta da entrada é derrubada, atrás de nós. Dois segundos depois, o som do tiro.

Descanse em paz, pequena.

Anúncios

Azul e vermelho 24 novembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in rafael waltrick, simulacro.
Tags: ,
3 comments

Eu não gosto do jeito como aquele homem me olha. Volta e meia, ele me observa sob o ombro de Ibrahim, o rosto impassível, me analisando e amaldiçoando em silêncio. Os dois estão discutindo há mais de hora. Ao contrário do que Ibrahim disse, parece que o maldito não parece muito propenso a aceitar a minha proposta. Eu queria ir até lá e esfregar o dinheiro na cara dele, mas Ibrahim me proibiu. Esses sujeitos são estranhos e perigosos, disse. Já lidei com gente muito pior.
Eu apenas espero, esvaziando a quarta long neck de cerveja, enquanto uma multidão se acaba de dançar lá embaixo, o som da música eletrônica estourando em meus ouvidos sensíveis. Viajei 14 horas de avião pra chegar até aqui e não vejo a hora de sair dessa merda de lugar.
Ibrahim dá as costas para o nosso vendedor reticente e vem até mim.
“Tá difícil. O cara não quer saber de nada disso. Diz que é muito arriscado. Só atende quem conhece.”
“E daí? Ele te conhece, não?”
“Humm… digamos que temos um grande amigo em comum. Mas ele não é bobo. Sabe que o bagulho não é pra mim.”
O bagulho a que Ibrahim se refere equivocadamente é uma poderosa droga sintética, que muitos sequer acreditam que existe. É fabricada somente aqui, em Tel Aviv. Eu tenho os meus próprios contatos e recursos. Eu sei de coisas que os outros não sabem. Por isso me dei ao trabalho de vir até essa espelunca, no meio do nada.
“Diz pra ele que eu pago o dobro do que ele pede. E que é pra me dar duma vez essa porra e parar de me fazer perder tempo.”
“Tem certeza disso? Tem toda essa grana aí?”
“Vai lá.”
Minha cabeça dói. Eu usei algo antes de sair do hotel? Não me lembro.
Tento ignorar a música alta tapando os dois ouvidos com as mãos. Um grupo de jovens mulheres próximo do bar me observa com cara de espanto, achando que sou maluco. Elas cochicham entre si.
Ibrahim volta. Pisca pra mim. Eu puxo um envelope debaixo da jaqueta, tiro algumas notas de dólar – várias notas, na verdade – e entrego pra ele. O judeu, ressabiado, esconde o dinheiro com rapidez. Volta até o homem, que continua me olhando desconfiado. Entre os flashes de luz que pipocam a cada segundo, o negócio é feito. Eu tento esconder a ansiedade, mas assim que Ibrahim chega perto de mim, o puxo pela camisa e praticamente o arrasto para fora do lugar. 
Entramos no carro, o BMW de Ibrahim. Tel Aviv é um show de cores e sons, que se arrastam à medida que o veículo acelera na avenida principal. Mesmo durante a madrugada, a praia está repleta de turistas, jovens na grande maioria, pulando e cantando ao redor de fogueiras.
Nunca tinha visto isso antes.
“Cadê?”, pergunto, minha voz se esvaindo pela janela aberta.
“Aqui. Mas presta atenção. Parece que tem umas manhas pra usar o negócio.”
Ele me passa duas pequenas pílulas em forma de losango, uma azul, a outra vermelha, guardadas dentro de um plástico.
“A azul é pra começar o barato. A vermelha, pra suspender o efeito. Mas ele disse que não é nada garantido. O negócio é meio experimental. Já teve gente que tomou e não deu pira nenhuma.”
“Você só pode tá brincando comigo. Quem é esse cara? Morpheus?”
“Eu achei que você já tava por dentro da parada. Ele disse que não era pra mim tirar os olhos de ti. Pelo menos enquanto você tiver doidão. Tem gente que se esquece da tal pílula vermelha e fica dias viajando.”
“Eu não preciso de babá. Me deixa perto do hotel. Tenho que pegar um ar.”
“Tu que manda, irmão. Mas eu ainda acho que era bom ficar por perto. Então? Não vai tomar o bagulho? Tava tendo um filho lá antes por causa desse negócio. Me deixou curioso.”
Eu olho para o invólucro em minha mão. Guardo as pílulas no bolso.
“Depois eu te conto como foi. Se a gente se ver de novo.”
Abro toda a janela do carro e coloco o rosto para fora, sentindo o vento passar forte por mim e me fazer perder o fôlego. Ibrahim me deixa a duas quadras do Davi Intercontinental. A brisa do mar traz um cheiro adocicado, de fruta. A minha cabeça dói. Preciso de um remédio.
O saguão do hotel está vazio. Cumprimento as recepcionistas com um sorriso falso e sigo até o quarto. Uma garrafa de vinho branco me aguarda. Mais uma. Tomo uma ducha quente, visto o roupão e encho uma taça. As pílulas estão em cima da mesinha de vidro. Tiro as duas de dentro do saco plástico. Não têm cheiro. Não há qualquer inscrição sobre a superfície.
Quatorze horas de viagem e 3 mil dólares por dois comprimidos. É bom que valha a pena.
Coloco a pílula azul na boca e a faço deslizar para dentro da garganta com um gole de vinho. Então, adormeço.

Dê a ele uma banana, se quiser, mas o faça ficar quieto!

des.per.tar
Verbo transitivo direto.
1.Tirar do sono; acordar, espertar.
2.Excitar, estimular.
3.Dar origem a.

Quanto tempo eu dormi?
Vou até a varanda. Ainda não amanheceu.
Eu tomei a pílula?
Minha garganta está seca. Pego a garrafa de vinho em cima da mesinha de mogno, mas ela está vazia. Não me lembro de ter tomado mais do que uma taça. Pelo menos, a dor de cabeça passou. Visto uma roupa. Da varanda aberta, ouço o som de asas. Malditos ouvidos. Estou escutando muita coisa ultimamente.
As recepcionistas já não são mais as mesmas. Na verdade, até o saguão do hotel parece diferente, embora eu não tenha perdido um minuto sequer antes admirando os móveis e lustres de luxo. Vou até o bar e peço uma água. O garçom, um rapaz esquálido e com uma camisa mal passada, me olha com estranheza e pergunta se estou me sentindo bem.
“Melhor do que nunca”, respondo.
Saio do hotel. Ligo para Ibrahim do celular, enquanto observo as crianças andando de bicicleta, àquela hora da madrugada. O aparelho emite um zunido estranho e então completa a ligação.
“Fala, Ferdinand.”
“É o Rubens.”
“Rubens? Não conheço nenhum Rubens.”
“Que merda é essa? Ibrahim? Coloca o Ibrahim na linha.”
Silêncio. A mesma voz volta a falar no telefone.
“É você, cara?”
“É o Rubens. Esse não é o telefone do Ibrahim?”
“Não, é o Matheus. Onde você tá?”
“Matheus? Quem tá falando?”
“Porra, você tá doidão. Tá no hotel? To indo aí te pegar. Dá um tempo e fica de boa.”
Quem diabos é Matheus? Procuro o nome de Ibrahim na lista de telefones do celular, e não encontro. Devo ter ligado para o número errado. Saio caminhando pela calçada, aproveitando o ar fresco e agradável.
Pra que lado mesmo é a praia?
“Ei, camarada.”
Olho para os lados, à procura da voz, e não encontro ninguém.
“Aqui, aqui embaixo.”
Ah, sim, um cachorro. Um maldito buldogue. Sentado sobre as patas traseiras, no meio fio, falando comigo.
Eu tomei a pílula?
“Tem um cigarro aí?”
“É comigo?”
“Tá vendo mais alguém aqui?”, responde o cachorro, me encarando.
Realmente, não há mais ninguém por perto. Eu olho ao redor, tentando achar alguém que possa me dizer se eu estou realmente vendo coisas ou não. “Que eu saiba, cachorros não falam, e muito menos fumam. Então, cala a boca e se manda daqui”, digo para o animal.
“Ah, claro, você é mesmo um sabichão. Tá certo. O louco aqui sou eu mesmo.”
Eu me aproximo dele e me abaixo, apoiando as mãos nos joelhos. Só pode ser um truque.
“Que merda você tá fazendo aqui? Você é uma alucinação?”
“Não pergunta pra mim, colega. O cara achou uma boa me colocar aqui pra conversar contigo. Eu só faço o que me mandam fazer.”
“Que cara?”
“O escritor, porra. Ou o que lá ele acha que seja.”
“Do que você tá falando?”
O buldogue suspira – um animal pode suspirar?
“Se liga. Se você prestar bastante atenção, pode ouvir o barulho das teclas…”
Antes que eu possa pensar no que o cachorro está falando, um carro para ao meu lado e buzina. O animal aproveita a deixa e sai balançando o rabo, as pernas gordas se deslocando devagar na calçada, como se nada tivesse acontecido. Um jovem abaixa o vidro do carro e me chama com a mão.
“Falei pra você esperar lá no hotel, cara. Fiquei rodando à toa. Chega aí.”
Eu vou até o veículo e olho o rapaz pela janela.
“Quem é você? Onde está o Ibrahim?”
“Cassete. Entra aí. Eu sabia que tinha que ficar de olho em ti.”
Eu subo no carro, no banco do passageiro. O rapaz liga o motor e avança pela avenida, desviando dos outros carros que parecem passear pela rua a trinta quilômetros por hora.

Os batimentos estão acelerados, doutor. Está monitorando?

“Caralho!”
“Que foi?”
O rapaz olha pra mim assustado, os cabelos longos sendo jogados para trás pelo vento.
“Você não ouviu isso?”
“Ouviu o quê, cara?”
“Essa… essa voz. Falando de batimentos, coisa assim.”
Eu levo a mão em direção ao rádio, pra ver se ele está ligado, mas não há rádio algum.
“Você tá doidão mesmo.”, se limita a dizer o jovem.
“Tem algo estranho acontecendo. Um cachorro veio falar comigo ali na calçada. Queria um cigarro.”
“Sim, sim, me conta uma novidade. Desde quando você tá assim?”
“Acordei agora a pouco. Achei que a pílula não tinha dado efeito nenhum. Nem me lembro de ter tomado.”
“Que pílula, cara?”
“A pílula azul, porra! O Ibrahim me deu horas atrás, compramos naquela boate perto do porto de Jahfa. Cadê ele, afinal? Preciso falar com ele.”
“Não viaja. Fui eu que te levei até lá.”
Eu fico quieto por um instante e tento pensar, mas a minha cabeça volta a doer. O rapaz que dirige o carro olha pra mim e balança a cabeça. Ele tem uma arma enfiada no cinto da calça. É uma cilada.
“Ei, que merda você tá fazen…”
Abro a porta do carro e me lanço pra fora, rolando pela rua. Fecho os olhos e apenas escuto o som das freadas. Me levanto e corro, desviando dos carros. Minhas pernas estão dormentes. Atrás de mim, já longe, ouço a voz do rapaz que diz se chamar Matheus. Eu apenas continuo correndo.
Então, o som de guitarras explode em minha cabeça. Eu me desequilibro e caio, ralando os dois cotovelos no concreto.

11.EXT.RUA MOVIMENTADA. NOITE

Os carros buzinam e desviam de RUBENS, que se levanta e volta a correr em direção à calçada. Ele está visivelmente desorientado. Olha para trás pra ver se está sendo perseguido. Tampa os dois ouvidos com as mãos. Chega até a calçada e esbarra em um casal que passa. Um RAPAZ DESCONHECIDO o empurra, em seguida.

RAPAZ DESCONHECIDO
Ei, doido, cuidado aí!

RUBENS corre pelo acostamento. As pessoas que caminham pela rua olham para ele, assustadas. Um POLICIAL, que toma uma latinha de refrigente, o vê passar a poucos metros.

POLICIAL
Que isso… parado aí!

RUBENS ignora a ordem e continua correndo. Ele grita e continua com as duas mãos nos ouvidos. Esbarra em um outro HOMEM DESCONHECIDO e cai. O HOMEM DESCONHECIDO para para ajudar e então RUBENS o agarra com os dois braços.

RUBENS
(gritando, lágrimas escorrendo dos olhos)
Você tá ouvindo isso? Manda eles pararem com isso!
Que barulho infernal é esse?

HOMEM DESCONHECIDO
Relaxa, cara, é só a trilha sonora.

RUBENS parece não entender o que O HOMEM DESCONHECIDO falou e então se levanta e volta a correr, momentos antes do POLICIAL chegar até o HOMEM DESCONHECIDO, que simplesmente levanta os ombros, em sinal de dúvida.

Um carro passa a alguns centímetros de mim e o motorista me xinga. O barulho infernal cessou, mas ainda mantenho as mãos nos ouvidos. Estou sem fôlego. Olho para o lado e, num relance, vejo uma multidão sentada lado a lado, no escuro, em pequenas poltronas. Os espectadores me encaram. De repente, não estão mais lá.
Dobro em uma esquina e passo por uma praça. Paro para recuperar o folego embaixo de uma árvore. Sem sinal do policial, ou do rapaz que diz se chamar Matheus.

Acho arriscado prosseguir. Desligue os neurotransmissores. Vamos ver como ele reage.

A pílula vermelha. Eu preciso da pílula vermelha.
Vasculho os bolsos da calça e não a encontro. Será que a deixei no hotel?
Eu tomei a pílula?
Alguém cheque meu cerébro.
Eu volto a correr, sentindo o suor escorrer em meu rosto e meu peito. Preciso voltar para o hotel. Preciso de um médico.
Preciso da pílula vermelha.
Meu coração dispara e eu caio no chão. A cabeça dói, mas eu não a bati.
Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeu cérebro.Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeucérebro.

Luz. Forte. Jaulas. Macacos. Sono. Preso.Humano branco olha eu. Humana branca olha eu. Humana branca passa a mão na cabeça minha. Bom. Bom macaquinho, diz ela. Bom. Passou, passou, diz ela. Eu gostar humana branca. Humana branca solta braço meu. Entrega bala. Vermelha. Doce. Bom.

A desgraça bate à porta 15 novembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in Citação, rafael waltrick.
Tags:
6 comments

Era aquela a hora. Foi até a sala de jantar, puxou uma das cadeiras, pôs o pé direito em cima, apoiou-se no encosto e levou o outro pé, equilibrando-se com esforço. Em seguida, subiu na mesa, erguendo-se com a ajuda da corda que havia pendurado meia hora antes no gancho do teto que outrora sustentara o luxuoso lustre. Dali, olhou para baixo, e imaginou se a altura seria mesmo suficiente. Teria que ser. Não queria se machucar mais do que precisava. Ou correr o risco de falhar. Pisou com cuidado no canto da mesa, equilibrando-se com a corda. Colocou o laço ao redor do pescoço, que sustentava um chamativo colar de pérolas, chegando até o peito. Olhou para a estante logo em frente, focando a visão já fraca no porta-retrato do rapaz sorrindo. Ao lado da foto, dezenas de figuras esculpidas em vidros preenchiam o espaço da prateleira, coberta por uma resistente camada de pó. Segurou a corda com ambas as mãos, acima da cabeça. Fechou os olhos.

A campainha tocou. Um som estridente, impertinente, vindo da porta da frente. Abriu os olhos. Esperou. O som se repetiu. Ninguém, nas duas últimas semanas, havia batido à porta. Olhou para os lados, o peito batendo forte, imaginando se alguém não a havia visto de alguma janela e tentava a dissuadir de prosseguir aquela cena grotesca. Porém, seria impossível. A janela da cozinha, de onde podia se divisar o corredor que dava até a sala de jantar, estava tampada pela cortina grossa, na mesma posição que permanecera nos últimos três meses. Nova tentativa à porta da frente. Se quisesse mesmo prosseguir com aquilo, aquele era o momento. No entanto, aquele ser insistente já havia prejudicado a sua determinação, interrompido a ideia com a qual convivia nos últimos anos e que finalmente tivera forças de levar adiante.

Iria descer, atender quem quer que fosse, e voltar para onde tinha parado.

Tirou o laço do pescoço, abaixou-se com dificuldade, o vestido trancando nos joelhos, e desceu. Olhou para cima, a corda balançando acima da sua cabeça. Ajeitou o cabelo, criteriosamente montado em um coque sustentado com laquê, atravessou a sala de jantar, passou por outro corredor que dava até a sala de estar e abriu a porta, não antes que a campainha soasse pela quarta vez.

O menino – ou o que fosse aquela miséria travestida em ser humano – segurou as duas mãos em frente da camisa maltrapilha e, quase num lamúrio, fez o pedido para a mulher de idade vestida com zelo á sua frente.

“Pão”.

Foi só o que falou. Por um momento, ela não soube se aquilo havia sido uma afirmação, uma indagação ou o resto choroso de algo que o menino havia falado antes, mas que não fora ouvido.

“O que você quer, garoto?”, perguntou ela, não escondendo a impaciência, metade do corpo escondido ainda dentro da casa.

O menino nada falou. Ficou ali, a cabeça baixa, o ódor nauseabundo de urina, queijo estragado e ovo podre emanando de seu corpo franzino. A mulher levou a cabeça para fora da casa, olhou para os lados, viu se mais alguém observava aquela a cena. No entanto, a rua estava deserta àquela hora, a não ser por alguns carros e jovens de bicicleta que passavam adiante.

“Vai pra longe daqui, garoto. Você está fedendo.”

“Pão”, respondeu o menino, como se aquilo fosse a única palavra que pudesse ou soubesse falar.

Ela o observou, atenta. O cheiro fétido a mandava fechar a porta antes que se intoxicasse, mas o rosto do menino, os olhos que a fitavam, fundos, cobertos por sujeira e gordura, impediam que deixasse aquele projeto de ser desemparado na rua, sem ao menos ter seu simples pedido atendido. Suspirou.

“Espere aqui, garoto. Eu já volto.”

Fechou a porta, atravessou a sala de estar, passou pelo corredor, andou pela outra sala, evitando olhar a corda que jazia suspensa ao lado da mesa, e chegou até a cozinha. Abriu o armário e de lá tirou o pão de forma, meio duro e mofado nos cantos. Colocou-o sobre a pia, pegou a faca e tirou uma fatia. Levou até a porta da frente e a entregou para o garoto. Ele não agradeceu. Ali mesmo, enfiou o pão na boca, limpando os lábios com a palma da mão e mastigando com pressa. Engoliu tudo em segundos, esboçando um pequeno sorriso ao terminar.

A mulher observou a refeição rápida e, por mais que tentasse ignorar, sentiu pena e tristeza por aquela pobre alma. O garoto ficou ali, à frente dela, como se aguardasse algo mais.

“Então, garoto, como é que se diz?”

“O… obri… gado”.

“Eu não ouvi.”

“Obrigado, dona.”

“É senhora. Volte pra casa e tome um banho. Você está imundo. Sua mãe deve ser uma desleixada para te deixar sair por aí nesse estado.”

O garoto concordou com a cabeça. Virou-se e desceu os degraus em direção à cerca. Antes que chegasse ao pequeno portão de ferro, ouviu a voz da mulher atrás dele.

“Ei, garoto. Onde você mora?”

O menino olhou para ela e apenas levantou os ombros.

“Você mora em alguma casa, não?”

Ele fez que não com a cabeça.

“Onde está a sua mãe?”

“Não tenho.”, respondeu, baixinho.

Ficaram os dois ali, parados, frente a frente, a dois metros de distância. A mulher olhou o garoto dos pés à cabeça, não deixando de notar o estado deplorável das roupas e os pés descalços. Pensou.

“Espere um pouco”, disse.

Foi até a sala de estar, subiu na mesa, esticou o braço até o gancho e tirou a corda. Rumou até a despensa e a jogou a corda em cima das caixas. Voltou até a frente da casa, onde o menino aguardava, exatamente na mesma posição de antes.

“Certo. Venha cá, garoto. Está frio aí fora e vai chover daquia pouco”, falou a mulher.

 

A primeira impressão que teve é que o menino devia estar sem comer há dias. A segunda é que ele não tomava banho há muito mais tempo. Sentou ao lado do garoto na pequena mesa de fórmica da cozinha, o observando devorar um bolo de cenoura, alguns sanduíches e um pacote de bolachas sortidas. Comia tudo sem parar pra beber e, se não fosse a orientação da senhora ao seu lado, acabaria engasgando. A mulher havia aberto a janela e a porta que dava para os fundos da casa, a fim de deixar que o fedor circulasse um pouco.

“Você tem nome?”, perguntou ela.

O menino a ignorou. Pegou o copo de suco de laranja com as duas mãos e o levou até a boca, deixando o líquido escorrer pelo canto dos lábios.

“Ei, estou falando com o senhor, jovenzinho”, insistiu a mulher.

“Meus irmãos me chamam de Tinho”, disse o garoto, enquanto avançava em mais um pedaço de bolo.

“Seus irmãos? E onde eles estão?”

O menino encheu a boca e engoliu tudo em seco. Ainda com os farelos aparecendo em meio aos dentes, respondeu, abaixando a cabeça, com vergonha.

“Eles vivem por aí, na rua. Me batem. Eles são maus.”

A muher olhou bem para o garoto e, embaixo da sujeira que saltava sobre a pele do pescoço e dos braços, pareceu ver mesmo algumas manchas roxas.

“Depois eu vou contigo e te deixo em algum lugar. Onde eles vão cuidar de ti. Mas, primeiro, vamos se livrar dessas roupas. Eu já te falei que você está imundo? Vem aqui fora”, disse a mulher, levantando-se e indo até o pátio da casa, onde a grama por cortar se estendia como um tapete felpudo por longos metros.

O garoto a acompanhou. Um muro alto guardava todo o jardim, que parecia abandonado, com alguns vasos de flores jogados no mato.

“Tira essa roupa.”, ordenou a mulher.

O menino olhou para ela em dúvida. Abraçou a si mesmo com o braços, como se quisesse se defender. Desviou o olhar para o chão e permaneceu em frente à porta que dava para a cozinha.

“Vamos, você não vai ficar andando com esses trapos sujos aí pela minha casa. Se livra disso agora”.

A mulher tomou a iniciativa e levantou os braços do garoto, tocando com asco na camisa rasgada e pastosa. Em seguida, tirou as calças e a cueca do menino, tapando o nariz com os dois dedos para se defender do mau cheiro. Pegou as roupas e as jogou em um latão de lixo ali fora.

“Pronto, vamos pro banheiro. Pelo visto esse fedor não era das roupas só”, disse ela, empurrando o garoto pelas costas.

 

O banho durou uma hora e, ao fim dele, a mulher estava com os dois braços doídos, após ter esfregado todo o corpo do garoto com força. A sujeira parecia estar impregnada na pele do menino. Ela o deixou enrolado em uma toalha, dentro do box, e foi até o quarto do filho. Mesmo depois de tanto tempo sem tocar nas roupas, encontrou um pijama sem nenhuma prega, em meio às bolas de naftalina. O tamanho iria servir, já que o pequeno andarilho não deveria ter mais do que oito anos. Vestiu o menino no banheiro mesmo, penteando o cabelo dele com força, para desenozar os fios, sob protesto de resmungos e lamúrias. Limpo e com uma roupa decente, ele até parecia um belo menino, percebeu a mulher. Na verdade, até mesmo parecido com o próprio filho, quando ele tinha aquela idade. O pensamento a fez relembrar do que havia preparado pouco tempo antes, no momento em que o garoto tocara na campainha. Ela o fitou por alguns instantes e o abraçou, deixando algumas lágrimas escorrerem e mancharem o rosto maqueado. O menino deixou a cabeça cair sobre o ombro dela, enlaçando seu pescoço. No ouvido da senhora, disse um frágil “obrigado”.

 

Ela deixou o garoto esperando no quarto de visitas e foi até a janela da frente. Já havia escurecido. Poderia esperar para levar o menino no dia seguinte até o Conselho Tutelar. Atrás da cortina, ela viu dois jovens do outro lado da rua, na esquina de um prédio, que pareciam encarar a casa dela. Fechou a cortina, ignorando os rapazes. Sua cabeça estava centrada no garoto que recebera e que, tinha certeza, não havia chegado até ela por acaso. O momento em que isso ocorrera e a semelhança com o filho não a deixavam pensar de maneira diferente.

Voltou até o quarto, preparou a cama e colocou o menino embaixo das cobertas. Ele apenas concordava com tudo que ela falava e fazia, deixando-se conduzir pela senhora.

“Eu vou estar no quarto ao lado. Qualquer coisa, é só bater na porta. Descanse bem. Amanhã cedo vamos dar uma volta.”

O garoto concordou dando um beijo no rosto da mulher. Ela corou e, para que ele não visse suas lágrimas, saiu do quarto, indo até a sala onde estava o porta retrato com a imagem do filho. O segurou entre as mãos e apertou-o contra o peito. Ficou na sala por alguns minutos e então foi dormir. Antes, passou no quarto de visitas e, pela fresta da porta entreaberta, viu o menino ressonar, deitado de lado.

 

Acordou com os passos no corredor e o barulho de algo chocando-se contra uma das cadeiras da sala de estar. Levantou, tateando a parede até localizar o interruptor. Saiu do quarto e encontrou o garoto em meio à escuridão, mexendo na fechadura da porta da frente da casa.

“O que você pensa que está fazendo, mocinho?”, disse, alto o suficiente para ser ouvida.

O menino chegou a sair do chão com o susto. Encostou-se contra a porta, virado para a mulher, acuado. Olhou para os lados, procurando alguma saída, mas foi surpreendido pela velocidade daquela senhora ágil, mesmo com a idade.

“Não pense que você vai sair por aí no meio da noite. O que diabos deu em você?”, ralhou a mulher, segurando o garoto pelo pulso.

O menino tentou se desvencilhar, mas desisitiu logo em seguida, frente à força da mulher. Abaixo a cabeça e fitou o chão, naquele gesto que já havia se tornado habitual.

“Vem, volta pra cama. Você parece um bicho do mato, que não sabe viver dentro de casa. O que te deu na cabeça?”, disse ela, levando o garoto de volta pro quarto.

No caminho, mudou de ideia e levou o menino para dormir junto com ela. Deitaram os dois, lado a lado, e uma sensação estranha a invadiu, antes de adormecer. Quanto tempo alguém não dormia com ela naquela cama? Não se lembrava. Deu uma última olhada no pequeno corpo rente ao seu, para ver se ele estava bem coberto. Em seguida, fechou os olhos e dormiu, enquanto o garoto fingia fazer o mesmo.

 

Meia hora depois, quando teve certeza que a senhora estava dormindo, o menino desvencilhou-se da coberta e dos lençóis com calma, pôs os pés no tapete e caminhou vagarosamente pelo quarto. Percorreu a casa na escuridão e chegou até a sala de estar. A chave da porta estava na fechadura, acompanhada de outras penduradas no chaveiro. Girou a maçaneta sem emitir qualquer barulho, como havia sido treinado. Abriu a porta e fez o sinal.

 

A mulher acordou ao sentir a coberta ser arremessada para o lado do corpo, mas antes que pudesse sequer abrir os olhos, o bastão de ferro bateu com violência contra suas costas e duas costelas se partiram. O grito de dor ficou engasgado em sua garganta e, mesmo em pânico, levou as mãos para o lado, tentando proteger o menino. Uma mão forte agarrou seus cabelos e a jogou no chão. Apesar da escuridão, conseguiu ver os dois tênis ao lado do seu corpo, que se lançaram, alternadamente, quatro vezes contra o seu peito e a barriga.

Outra pessoa entrou no quarto.

“Vai buscar uma corda pra amarrar essa vaca”, disse uma voz de homem, dono dos sapatos e do bastão de ferro.

“E onde eu vou arranjar a merda de uma corda?”, respondeu o outro.

“Se vira, seu puto. Vamo fazer a limpa e se mandar logo daqui”.

O segundo homem, na verdade um jovem de 17 anos, saiu do quarto e correu pelo corredor, chegando até a sala. O garoto estava ali, sentado no chão, ao lado da estante. Estava com a cabeça mergulhada entre os braços. O jovem foi até ele e fez um afago rápido na cabeça.

“É isso aí, maninho. Ficamos te devendo mais essa. Assim vamos longe.”

Saiu dali e foi até a cozinha. Mexeu em algumas das gavetas. Na despensa, achou a corda jogada, em cima das caixas.

Cara nova e gente nova 30 outubro, 2009

Posted by Fábio Ricardo in Uncategorized.
Tags: , , ,
1 comment so far

Se você está lendo este post, parabéns! Você acaba de descobrir a nova cara do Duelo de Escritores. Agora estamos hospedados no WordPress, então aquele link do blogspot.com não funciona mais. Mas o que interessa é que o http://www.duelodeescritores.com continua sendo o link oficial.

Se você está acompanhando a mudança e os preparativos para o Ano 3 do Duelo de Escritores já sabe que tem carne fresca no pedaço. Se você ainda não sabia, vai se informar agora:

Com a saída de Félix Rosumek e Thiago Floriano, fomos atrás de dois novos duelistas para manter o projeto em boas mãos: Rafael Waltrick e Marcelo Labes. Entre os critérios de escolha estiveram, além da óbvia qualidade de escrita, o gosto por experimentações, a diversidade de assuntos abordados e até mesmo a proximidade com os integrantes. Tudo isso para facilitar as reuniões pessoais, os encontros e os chacoalhões de tempos em tempos.

Um pouquinho sobre os novos Duelistas:

Rafael Waltick

Lageano, 24 anos. Jornalista por formação, escritor por insistência. Sonha em se livrar das amarras do jornalismo diário para se dedicar integralmente à literatura, se possível, antes de chegar aos 50 anos. Começou a escrever o primeiro romance aos 12 anos, que está jogado pela metade em alguma gaveta escura. Entusiasta dos contos, tem como referência autores como Edgar Allan Poe, Rubem Fonseca, Kafka e Stephen King. Seu maior patrimônio é a coleção de livros e dvds, que lhe toma boa parte do tempo e do salário de repórter.

Marcelo Labes

Marcelo Labes tem 25 anos, cursa Letras há sete; confia mais na Literatura do que na Academia. Prefere ler a escrever. Autor de Falações (Edifurb, 2008), livro de poemas de mau-gosto, preza pela insensatez. Crê que o ofício da escrita é um equívoco que deveria ser evitado se se conseguisse.

Damos as boas vindas aos novos competidores e avisamos a todos: no dia 1 de novembro, aniversário de 2 anos do Duelo de Escritores, recomeça a batalha! Rodrigo Oliveira posta o novo tema e os novos duelistas já entram na roda junto com os três antigos, como vinha sendo feito há dois anos.

Até lá!