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Novo tema 1 dezembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in Temas, vingança.
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Olá, leitores e duelistas!

Tomo a liberdade de já postar aqui o novo tema. Pode ser um tema meio “batido” ou comum demais, visto os últimos temas mais “alternativos”, por assim dizer. Mas certamente essa premissa já rendeu grandes histórias na literatura e cinema, e acredito que aqui não será diferente.

Enfim. O novo tema é VINGANÇA.

Duelistas devem postar os textos até domingo, dia 6.

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Votação – Simulacro 27 novembro, 2009

Posted by Marina Melz in simulacro, votação.
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Está aberta a votação para os textos com o tema Simulacro.

Até o dia 30 de novembro, você pode escolher qual é o melhor conto e votar.

 

Conto de príncipe 26 novembro, 2009

Posted by Marina Melz in Uncategorized.
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Ele tinha cara de príncipe. Loiro, cabelos caindo pelo olho, postura, poesia. Na verdade era sapo: nojento, asqueroso e frio. Muitas o beijaram. Na língua, dava pra sentir o amargor, que destruia o amar.

Posfácio

Dizia ter o coração fechado: (simu)lacre.

 

Simulacro 26 novembro, 2009

Posted by Fábio Ricardo in fábio ricardo, simulacro.
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– Cara, você viu o novo tema do Duelo?
– Não… qual é?
– Simulacro. Tema bom, né?
– Pô, animal cara. Taí um tema que realmente dá pra se aprofundar, escrever um texto bom a respeito.

Quando Rodrigo saiu do quarto, segui sentado na beira da cama, olhando a janela. Uma inquietação me atrapalhava o raciocínio, algo não estava certo. Acabei por ceder e assumir para mim mesmo meu questionamento. Afinal, o que diabos é um simulacro?

Devo admitir, como bom nerd que sou, que a carta de Magic me veio a cabeça. Simulacro… simulacro… devo ter dois. Custa um mana preto e um incolor, transfere todo o dano que recebi neste turno para uma criatura que eu controlo. Isso pode não significar nada para quem não conhece o jogo, mas vejamos… transferir o dano para outro, transferir o dano para outro… ei! Deve ter alguma coisa  a ver com trabalho. É no trabalho que a gente sempre transfere toda a culpa de algo que deu errado e ia explodir em nossa mão, para outra pessoa. De preferência para nossos subordinados… nossas criaturas!

Então o simulacro pode estar falando justamente sobre isso. Colocar a culpa em outra pessoa. Se passar por sabichão, mesmo tendo feito a cagada sozinho, e dar um jeito – sempre damos um jeito – de culpar o estagiário. Certeza que simulacro tem alguma coisa a ver com falsidade. E alguém sempre se ferra na história. Se a carta é preta, é porque é coisa do capeta. Então o simulacro da vida real também deve ser do mal. Afinal de contas, se fosse uma coisa boa, não tinha um nome macabro como esse: simulacro.

Não sei por que, simulacro me lembra um caixão, uma lápide… Simulacro tem alguma coisa a ver com cemitério? Ok, desisto. Vou olhar no Dicionário. Achei o Michaelis:

si.mu.la.cro
s. m. 1. Aparência, imitação. 2. Vã representação, aspecto exterior e enganador. 3. Visão sem realidade; espectro, fantasma.

Aparência, imitação. Hum… er… ok. Simulacro é uma imitação. Nada a ver com cemitérios ou com jogar a culpa em alguém. Saco. Opa, peraí. Olha ali: aspecto exterior e enganador. Rá, eu sabia. Tinha que ter uma pilantragem no meio. E continua lendo ali: espectro, fantasma. Fantasma tem tudo a ver com cemitério. Ou seja, lápide, caixão, aquela coisa toda. Sabia!

O que irrita é que são três significados, e nenhum tem nada a ver com o outro. Aparência, enganação e fantasma. Somando tudo, simulacro é a aparência enganadora de um fantasma. Bonito isso. Tipo festa de dia das bruxas.

Mas resumindo, simulacro é tipo assim: uma coisa que parece ser algo, mas na verdade é uma enganação. Como esse texto, que você jurou que tinha tudo a ver com o tema.


O outro 25 novembro, 2009

Posted by Rodrigo Oliveira in simulacro.
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Deixe que eu fale, que esse peito que me deste é por demais pequeno é já lhe falta espaço. Deixe que fale. Ao menos assim, quem sabe, terei certeza da minha própria e duvidosa existência. Sim, eu sei. Eu existo. Ao menos é o que parece. Mas se existo, existo apenas no outro. Ou pelo outro, quem sabe? Existo como uma imagem construída por mim, das imagens que imagino que outros façam de mim. E da imagem que eu, por minha vez, faço destes mesmos outros que pusestes aqui, comparados a mim.

É por meio do outro que existo. Ou que me sei como eu. Se sou magro demais é porque o outro não o é. Se uso barba é porque o outro não a usa. Se me chamas pelo meu nome, é porque não chamas o outro. Se sou eu mesmo é, simplesmente, porque o outro não o é.

Não sou senão no outro.
Sem o outro, talvez eu nem mesmo exista.
Talvez apenas… esteja.

E me peguei a pensar de quando não havia outro. Mas se houve não é verdade. Eu nunca fui sem que outro antes não tivesse sido. Se a serpente se arrasta é porque eu não o faço. Se o leão ruge é, de novo, simplesmente, porque eu não o faço. Se a árvore se ergue majestosa é, sim, mais uma vez, porque eu não o faço. Sempre que fui, foi no outro.

Mas houve um tempo, não? Houve um tempo, antes, bem antes de mim, que não houve outro. Um tempo imemorial em que o outro simplesmente não existia. Tu lembras, não lembra? Só tu poderia lembrar deste tempo de que falo.

Havia apenas um. Recorda. Um e nada mais. Mas não somos senão no outro, não é? Tu naquele tempo, não havia outro. Tu sem o outro… foi por isso, não foi? Não é por isso que estou eu aqui agora, erguido pelo outro, por ti, para ser, justamente, o outro. O teu outro.

Tu que talvez, sem mim, sem o outro, não existia. Estavas, apenas. E nada mais. Um potencial eterno e nulo. Um tudo preso num nada. A potência inexistente sem uma impotência que existisse. Foi por isso, não?

Criastes a outra para que eu existisse de fato. Mas foi só quando criastes a mim que, tu, passou, por tua vez, a existir de fato. Criastes um outro para ti, para que tu pudeste de fato existir.

E se tu existe, não te zangues, é por este outro que o sou.

Sim, certamente. Não te zangues que pode castigar até os rasos limites meus. Mas não te desfaças de mim. Que te desfarias de ti. Sim, me vou. Tomarei a que me destes. Para que eu também exista, distante de ti. Vou-me com ela, se é assim que preferes. Tens, no fundo, razão. Novamente e como sempre tivestes. É preciso que me vá. Porque para que este lugar exista, é preciso, bem sabes, que haja outro. Que aqui é, só o é pelo outro. Como eu, como tu, como este fruto que só está inteiro porque este, vê — nhac — não está mais. Se és completo, é porque não o sou. Se és um, é porque sou dois. E assim há de ser. Vou-me. Há um lugar que tenho  de visitar. Qual? Outro.

Azul e vermelho 24 novembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in rafael waltrick, simulacro.
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Eu não gosto do jeito como aquele homem me olha. Volta e meia, ele me observa sob o ombro de Ibrahim, o rosto impassível, me analisando e amaldiçoando em silêncio. Os dois estão discutindo há mais de hora. Ao contrário do que Ibrahim disse, parece que o maldito não parece muito propenso a aceitar a minha proposta. Eu queria ir até lá e esfregar o dinheiro na cara dele, mas Ibrahim me proibiu. Esses sujeitos são estranhos e perigosos, disse. Já lidei com gente muito pior.
Eu apenas espero, esvaziando a quarta long neck de cerveja, enquanto uma multidão se acaba de dançar lá embaixo, o som da música eletrônica estourando em meus ouvidos sensíveis. Viajei 14 horas de avião pra chegar até aqui e não vejo a hora de sair dessa merda de lugar.
Ibrahim dá as costas para o nosso vendedor reticente e vem até mim.
“Tá difícil. O cara não quer saber de nada disso. Diz que é muito arriscado. Só atende quem conhece.”
“E daí? Ele te conhece, não?”
“Humm… digamos que temos um grande amigo em comum. Mas ele não é bobo. Sabe que o bagulho não é pra mim.”
O bagulho a que Ibrahim se refere equivocadamente é uma poderosa droga sintética, que muitos sequer acreditam que existe. É fabricada somente aqui, em Tel Aviv. Eu tenho os meus próprios contatos e recursos. Eu sei de coisas que os outros não sabem. Por isso me dei ao trabalho de vir até essa espelunca, no meio do nada.
“Diz pra ele que eu pago o dobro do que ele pede. E que é pra me dar duma vez essa porra e parar de me fazer perder tempo.”
“Tem certeza disso? Tem toda essa grana aí?”
“Vai lá.”
Minha cabeça dói. Eu usei algo antes de sair do hotel? Não me lembro.
Tento ignorar a música alta tapando os dois ouvidos com as mãos. Um grupo de jovens mulheres próximo do bar me observa com cara de espanto, achando que sou maluco. Elas cochicham entre si.
Ibrahim volta. Pisca pra mim. Eu puxo um envelope debaixo da jaqueta, tiro algumas notas de dólar – várias notas, na verdade – e entrego pra ele. O judeu, ressabiado, esconde o dinheiro com rapidez. Volta até o homem, que continua me olhando desconfiado. Entre os flashes de luz que pipocam a cada segundo, o negócio é feito. Eu tento esconder a ansiedade, mas assim que Ibrahim chega perto de mim, o puxo pela camisa e praticamente o arrasto para fora do lugar. 
Entramos no carro, o BMW de Ibrahim. Tel Aviv é um show de cores e sons, que se arrastam à medida que o veículo acelera na avenida principal. Mesmo durante a madrugada, a praia está repleta de turistas, jovens na grande maioria, pulando e cantando ao redor de fogueiras.
Nunca tinha visto isso antes.
“Cadê?”, pergunto, minha voz se esvaindo pela janela aberta.
“Aqui. Mas presta atenção. Parece que tem umas manhas pra usar o negócio.”
Ele me passa duas pequenas pílulas em forma de losango, uma azul, a outra vermelha, guardadas dentro de um plástico.
“A azul é pra começar o barato. A vermelha, pra suspender o efeito. Mas ele disse que não é nada garantido. O negócio é meio experimental. Já teve gente que tomou e não deu pira nenhuma.”
“Você só pode tá brincando comigo. Quem é esse cara? Morpheus?”
“Eu achei que você já tava por dentro da parada. Ele disse que não era pra mim tirar os olhos de ti. Pelo menos enquanto você tiver doidão. Tem gente que se esquece da tal pílula vermelha e fica dias viajando.”
“Eu não preciso de babá. Me deixa perto do hotel. Tenho que pegar um ar.”
“Tu que manda, irmão. Mas eu ainda acho que era bom ficar por perto. Então? Não vai tomar o bagulho? Tava tendo um filho lá antes por causa desse negócio. Me deixou curioso.”
Eu olho para o invólucro em minha mão. Guardo as pílulas no bolso.
“Depois eu te conto como foi. Se a gente se ver de novo.”
Abro toda a janela do carro e coloco o rosto para fora, sentindo o vento passar forte por mim e me fazer perder o fôlego. Ibrahim me deixa a duas quadras do Davi Intercontinental. A brisa do mar traz um cheiro adocicado, de fruta. A minha cabeça dói. Preciso de um remédio.
O saguão do hotel está vazio. Cumprimento as recepcionistas com um sorriso falso e sigo até o quarto. Uma garrafa de vinho branco me aguarda. Mais uma. Tomo uma ducha quente, visto o roupão e encho uma taça. As pílulas estão em cima da mesinha de vidro. Tiro as duas de dentro do saco plástico. Não têm cheiro. Não há qualquer inscrição sobre a superfície.
Quatorze horas de viagem e 3 mil dólares por dois comprimidos. É bom que valha a pena.
Coloco a pílula azul na boca e a faço deslizar para dentro da garganta com um gole de vinho. Então, adormeço.

Dê a ele uma banana, se quiser, mas o faça ficar quieto!

des.per.tar
Verbo transitivo direto.
1.Tirar do sono; acordar, espertar.
2.Excitar, estimular.
3.Dar origem a.

Quanto tempo eu dormi?
Vou até a varanda. Ainda não amanheceu.
Eu tomei a pílula?
Minha garganta está seca. Pego a garrafa de vinho em cima da mesinha de mogno, mas ela está vazia. Não me lembro de ter tomado mais do que uma taça. Pelo menos, a dor de cabeça passou. Visto uma roupa. Da varanda aberta, ouço o som de asas. Malditos ouvidos. Estou escutando muita coisa ultimamente.
As recepcionistas já não são mais as mesmas. Na verdade, até o saguão do hotel parece diferente, embora eu não tenha perdido um minuto sequer antes admirando os móveis e lustres de luxo. Vou até o bar e peço uma água. O garçom, um rapaz esquálido e com uma camisa mal passada, me olha com estranheza e pergunta se estou me sentindo bem.
“Melhor do que nunca”, respondo.
Saio do hotel. Ligo para Ibrahim do celular, enquanto observo as crianças andando de bicicleta, àquela hora da madrugada. O aparelho emite um zunido estranho e então completa a ligação.
“Fala, Ferdinand.”
“É o Rubens.”
“Rubens? Não conheço nenhum Rubens.”
“Que merda é essa? Ibrahim? Coloca o Ibrahim na linha.”
Silêncio. A mesma voz volta a falar no telefone.
“É você, cara?”
“É o Rubens. Esse não é o telefone do Ibrahim?”
“Não, é o Matheus. Onde você tá?”
“Matheus? Quem tá falando?”
“Porra, você tá doidão. Tá no hotel? To indo aí te pegar. Dá um tempo e fica de boa.”
Quem diabos é Matheus? Procuro o nome de Ibrahim na lista de telefones do celular, e não encontro. Devo ter ligado para o número errado. Saio caminhando pela calçada, aproveitando o ar fresco e agradável.
Pra que lado mesmo é a praia?
“Ei, camarada.”
Olho para os lados, à procura da voz, e não encontro ninguém.
“Aqui, aqui embaixo.”
Ah, sim, um cachorro. Um maldito buldogue. Sentado sobre as patas traseiras, no meio fio, falando comigo.
Eu tomei a pílula?
“Tem um cigarro aí?”
“É comigo?”
“Tá vendo mais alguém aqui?”, responde o cachorro, me encarando.
Realmente, não há mais ninguém por perto. Eu olho ao redor, tentando achar alguém que possa me dizer se eu estou realmente vendo coisas ou não. “Que eu saiba, cachorros não falam, e muito menos fumam. Então, cala a boca e se manda daqui”, digo para o animal.
“Ah, claro, você é mesmo um sabichão. Tá certo. O louco aqui sou eu mesmo.”
Eu me aproximo dele e me abaixo, apoiando as mãos nos joelhos. Só pode ser um truque.
“Que merda você tá fazendo aqui? Você é uma alucinação?”
“Não pergunta pra mim, colega. O cara achou uma boa me colocar aqui pra conversar contigo. Eu só faço o que me mandam fazer.”
“Que cara?”
“O escritor, porra. Ou o que lá ele acha que seja.”
“Do que você tá falando?”
O buldogue suspira – um animal pode suspirar?
“Se liga. Se você prestar bastante atenção, pode ouvir o barulho das teclas…”
Antes que eu possa pensar no que o cachorro está falando, um carro para ao meu lado e buzina. O animal aproveita a deixa e sai balançando o rabo, as pernas gordas se deslocando devagar na calçada, como se nada tivesse acontecido. Um jovem abaixa o vidro do carro e me chama com a mão.
“Falei pra você esperar lá no hotel, cara. Fiquei rodando à toa. Chega aí.”
Eu vou até o veículo e olho o rapaz pela janela.
“Quem é você? Onde está o Ibrahim?”
“Cassete. Entra aí. Eu sabia que tinha que ficar de olho em ti.”
Eu subo no carro, no banco do passageiro. O rapaz liga o motor e avança pela avenida, desviando dos outros carros que parecem passear pela rua a trinta quilômetros por hora.

Os batimentos estão acelerados, doutor. Está monitorando?

“Caralho!”
“Que foi?”
O rapaz olha pra mim assustado, os cabelos longos sendo jogados para trás pelo vento.
“Você não ouviu isso?”
“Ouviu o quê, cara?”
“Essa… essa voz. Falando de batimentos, coisa assim.”
Eu levo a mão em direção ao rádio, pra ver se ele está ligado, mas não há rádio algum.
“Você tá doidão mesmo.”, se limita a dizer o jovem.
“Tem algo estranho acontecendo. Um cachorro veio falar comigo ali na calçada. Queria um cigarro.”
“Sim, sim, me conta uma novidade. Desde quando você tá assim?”
“Acordei agora a pouco. Achei que a pílula não tinha dado efeito nenhum. Nem me lembro de ter tomado.”
“Que pílula, cara?”
“A pílula azul, porra! O Ibrahim me deu horas atrás, compramos naquela boate perto do porto de Jahfa. Cadê ele, afinal? Preciso falar com ele.”
“Não viaja. Fui eu que te levei até lá.”
Eu fico quieto por um instante e tento pensar, mas a minha cabeça volta a doer. O rapaz que dirige o carro olha pra mim e balança a cabeça. Ele tem uma arma enfiada no cinto da calça. É uma cilada.
“Ei, que merda você tá fazen…”
Abro a porta do carro e me lanço pra fora, rolando pela rua. Fecho os olhos e apenas escuto o som das freadas. Me levanto e corro, desviando dos carros. Minhas pernas estão dormentes. Atrás de mim, já longe, ouço a voz do rapaz que diz se chamar Matheus. Eu apenas continuo correndo.
Então, o som de guitarras explode em minha cabeça. Eu me desequilibro e caio, ralando os dois cotovelos no concreto.

11.EXT.RUA MOVIMENTADA. NOITE

Os carros buzinam e desviam de RUBENS, que se levanta e volta a correr em direção à calçada. Ele está visivelmente desorientado. Olha para trás pra ver se está sendo perseguido. Tampa os dois ouvidos com as mãos. Chega até a calçada e esbarra em um casal que passa. Um RAPAZ DESCONHECIDO o empurra, em seguida.

RAPAZ DESCONHECIDO
Ei, doido, cuidado aí!

RUBENS corre pelo acostamento. As pessoas que caminham pela rua olham para ele, assustadas. Um POLICIAL, que toma uma latinha de refrigente, o vê passar a poucos metros.

POLICIAL
Que isso… parado aí!

RUBENS ignora a ordem e continua correndo. Ele grita e continua com as duas mãos nos ouvidos. Esbarra em um outro HOMEM DESCONHECIDO e cai. O HOMEM DESCONHECIDO para para ajudar e então RUBENS o agarra com os dois braços.

RUBENS
(gritando, lágrimas escorrendo dos olhos)
Você tá ouvindo isso? Manda eles pararem com isso!
Que barulho infernal é esse?

HOMEM DESCONHECIDO
Relaxa, cara, é só a trilha sonora.

RUBENS parece não entender o que O HOMEM DESCONHECIDO falou e então se levanta e volta a correr, momentos antes do POLICIAL chegar até o HOMEM DESCONHECIDO, que simplesmente levanta os ombros, em sinal de dúvida.

Um carro passa a alguns centímetros de mim e o motorista me xinga. O barulho infernal cessou, mas ainda mantenho as mãos nos ouvidos. Estou sem fôlego. Olho para o lado e, num relance, vejo uma multidão sentada lado a lado, no escuro, em pequenas poltronas. Os espectadores me encaram. De repente, não estão mais lá.
Dobro em uma esquina e passo por uma praça. Paro para recuperar o folego embaixo de uma árvore. Sem sinal do policial, ou do rapaz que diz se chamar Matheus.

Acho arriscado prosseguir. Desligue os neurotransmissores. Vamos ver como ele reage.

A pílula vermelha. Eu preciso da pílula vermelha.
Vasculho os bolsos da calça e não a encontro. Será que a deixei no hotel?
Eu tomei a pílula?
Alguém cheque meu cerébro.
Eu volto a correr, sentindo o suor escorrer em meu rosto e meu peito. Preciso voltar para o hotel. Preciso de um médico.
Preciso da pílula vermelha.
Meu coração dispara e eu caio no chão. A cabeça dói, mas eu não a bati.
Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeu cérebro.Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeucérebro.

Luz. Forte. Jaulas. Macacos. Sono. Preso.Humano branco olha eu. Humana branca olha eu. Humana branca passa a mão na cabeça minha. Bom. Bom macaquinho, diz ela. Bom. Passou, passou, diz ela. Eu gostar humana branca. Humana branca solta braço meu. Entrega bala. Vermelha. Doce. Bom.

Radiografia de um homem feliz. 23 novembro, 2009

Posted by Marcelo Labes in marcelo labes, simulacro.
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“Sou um típico homem feliz. De fato, após ter vivido esses quarenta anos e da forma como foi, posso assegurar que um homem não tem muitos motivos para não dar certo na vida. Vejam meu caso: de família humilde, vi meus dois irmãos aventurarem-se pelo que de mau a vida nos oferece no dia a dia e terem se tornado homens angustiados e deprimidos pela difícil situação financeira em que se encontram. Eu previa desde cedo que fossem terminar assim, mas nunca lhes disse: queria que se dessem conta de que seres ignorantes têm vidas ignorantes.

“Da mesma forma, vi meu pai morrer afogado em litros e litros de pinga barata. Eu lamentava tanto a sua decisão quanto a minha tristeza por vê-lo, aos poucos, oferecer a nós, espectadores de sua decrepitude, as cenas mais terríveis a que poderíamos ter sido expostos. É baseado nisto que explico os deslizes de meus irmãos e a infelicidade de minha mãe. Ou a sua ascensão: depois que meu pai finalmente nos permitiu viver um pouco menos angustiados, minha mãe alternava seus relacionamentos entre homens iguais a ele e respeitosos senhores do círculo católico — e tediosos, por deus! — que vinham jantar em nossa casa sábados à noite.

“É evidente que não saí ileso dessa conturbada vida familiar. Ainda hoje, em noites de insônia, lembro do choro calado de minha mãe e dos gemidos de meu pai em seu leito de morte; ora alternados os dois sons, ora sobrepostos. No entanto, tirando meu fatal medo da vida familiar que por alguns momentos tive a oportunidade de criar — eu mesmo teria a minha família, meus filhos, minha casa, meu carro etc. — posso dizer que nada disso me afetou como afetou meus irmãos ou minha mãe ou as pessoas que paravam diante de nossa casa nos sábados à tardinha, quando o pai voltava carregado do bar.

“Mas sou um homem feliz. É bem verdade que se minha elegância se sobrepusesse ao meu temperamento frio, eu teria mais sorte com as mulheres e com os amigos. Não sou muito chegado a amigos: lembro-me dos tempos de escola, quando éramos em três ou quatro e tive de delatá-los para manter a bolsa de estudos que com muito choro minha mãe havia conseguido no colégio católico. Das surras que apanhei após a delação, tirei a lição de que não se pode ser muito achegado às pessoas.

“É daí, certamente, e do meu temperamento, não se pode esquecer dele, que veio meu tino comercial, essa capacidade de fazer negócios e, como dizem os sindicalistas em discursos acalorados, explorar pessoas humildes. Ora, eu também já fui humilde e tirei proveito de tudo quanto sofri para me tornar um homem tão bem sucedido. E feliz, como se pode ver.

“Acontece, sim, às vezes, de eu me perceber solitário, gastando pequenas fortunas em ternos italianos ou nova-iorquinos — que são parte fundamental da minha presença austera e marcante. Mas aprendi com o tempo: para pequenos remorsos há sempre pequenos remédios e isso fica explícito nas doações que faço, duas vezes por ano, de jogos de agasalhos que peço, discretamente, que sejam entregues em instituições de crianças desfavorecidas.

“Tenho meus deslizes. De repente, se eu comentá-los, a imagem que se tinha de mim antes de eu começar a falar de minha vida se deturpe. Tenho uma proximidade sensual com o álcool e com remédios para dormir, hábitos que herdei de minha mãe e meu pai, talvez seu maior legado ao filho mais novo de uma família neurótica. Mas nada disso me diminui, embora tenha ficado constrangido de, ao observar à distância a entrega dos agasalhos, ter visto ali meu irmão mais velho e sua esposa com seus dois filhos. Eles tristemente esperavam na fila a sua vez. Mas isso não pode me diminuir.

“Como eu bem dizia, sou um homem tipicamente feliz. Ou aparentemente, porque feliz de fato sabe-se que não se pode ser”.

E ao pensar estas últimas palavras põe-se absorto entre pensamentos e imagens que somente uísque escocês a mil e duzentos euros a garrafa pode proporcionar.

Novo Tema. 21 novembro, 2009

Posted by Marcelo Labes in simulacro.
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Uhm. Dia de novo tema e a bomba explode na minha mão.

Vou compartilhar a bomba e o tema, que será simulacro.

Textos postados até o dia 26/11.

 

Votação 16 novembro, 2009

Posted by Rodrigo Oliveira in Citação, votação.
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Aberta votação para a rodada.

Leitores e duelistas podem deixar seus votos até o dia 20/11.

Um, dois, três: valendo!

A crueldade é laranja 16 novembro, 2009

Posted by Rodrigo Oliveira in Citação.
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A crueldade tem os olhos verdes. E sardas. Ela tem sardas, olhos verdes e cabelo laranja meio bagunçado. Quando ela sorri arreganha os dentes mal crescidos. Mas o pior de tudo, são seus olhos verdes sempre atentos. Atentos demais. E a crueldade vive de mãos dadas com a cobiça. E ela quer sempre mais. Então a crueldade chantageia.

Ela quer passar de ano e quer os trabalhos feitos. As tarefas respondidas, as assinaturas forjadas. Ela recebe os trabalhos prontos e tira boas notas e ri um sorriso arreganhado de dentes mal crescidos.

Ela quer doces. E os recebe. Ela pede cerveja quando os pais não estão. Ela pede dinheiro para ir ao shopping. Eu digo que é a última vez. Ela pisca os olhos atentos — atentos demais — e diz que vai avisar quando for a última vez.

Ela pede para ver, senão vai contar tudo. Vai contar tudo a todos se não ver tudo. Eu deixo, então, a cortina aberta. Ela vê. Ela vê com os olhos atentos demais para não contar o que viu. Ela vê e sempre pede mais. E ri com as bochechas sardentas daquela cara laranja. A crueldade tem olhos verdes e mora na casa ao lado. E onde olha. Atenta demais.