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Culpa 5 dezembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in rafael waltrick, vingança.
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Duas doses de uisque e três cubos de gelo.

Deveria ser o suficiente pra me fazer dormir. Mas não hoje.

Ainda estou com a gravata e a camisa de linho que usei no julgamento. A gravata aperta meu pescoço, me sufoca. Em silêncio, estirado na poltrona, o único móvel nessa sala úmida, eu relembro cada instante, cada palavra, cada argumentação, até a decisão final do juiz. O gosto amargo ainda está em minha boca e nem o uísque é capaz de amenizar o sabor repulsivo que eu sinto, impregnado em meu corpo.

A uma hora dessas, o verme deve estar festejando, bebendo e fumando erva às custas da impunidade, com seus amigos vindos direto do esgoto dessa cidade nojenta. Eu sei onde eles se escondem, onde se entregam às mais desprezíveis violações, longe dos olhos da dita sociedade moralista. Eu estive lá antes. Eu vi.

O verme não perde por esperar.

*

Astolfo segura o jornal na mão, os olhos concentrados na página em preto e branco. Ele olha para as linhas datilografadas, levanta os olhos para mim, volta a ler. Eu o ignoro, sentado em minha mesa, preenchendo alguns papéis.

“Você viu isso, Mendonza?”, pergunta.

“Eu não leio jornal.”

“Pois devia. Tem uma foto do teu amigo aqui. Feliz da vida. Saiu pela porta da frente. Que merda, hein?”

“Eu estava lá.”

“Ah, sim, imaginei. Você não ia perder nisso por nada desse mundo, né?”

Ele levanta, pega a caneca onde está escrito FLAMENGUISTA NOTA DEZ e passa por mim, dando um tapinha leve em meu ombro esquerdo. Joga o jornal em minha mesa.

“Relaxa. Isso acontece todo dia. A gente faz o que pode. Mas o que adianta se os putos resolvem mostrar que todo mundo é inocente até que se prove o contrário? Inocente é uma ova. Sistema do caralho.”

Astolfo discursa como se isso tudo realmente tivesse importância pra ele. Eu tenho asco de sua voz, de sua cara, embora nós dois tenhamos sido parceiros por quase dez anos. Ele está quase se aposentando e nada disso mais importa. Ninguém aqui sabe. Ninguém aqui a viu, naquela manhã, quando eu cheguei na beira do rio. Quando eu fechei seus olhos cheios de desespero com a mão. Ninguém sentiu o cheiro da decomposição vindo de seus braços, suas pernas, seu corpo ainda em formação. Não foram eles que bateram na porta da casa dos pais para dar a notícia.

O dia segue sem alterações até a noite. Cinco minutos antes de eu ir embora, um repórter liga dizendo que está fazendo a “ronda” e pergunta se houve alguma ocorrência de destaque. Eu não me dou ao trabalho de responder.

Malditos abutres.

Dirijo sem rumo por algumas horas, os faróis iluminando a escória nas ruas, ansiando por drogas e sexo barato. Algumas das putas abanam para mim, esperançosas de que eu as leve dali, pelo menos por algumas horas. Mas não hoje.

Antes de ir dormir, eu passo na frente da casa do verme. Estaciono o carro a alguns metros e fico apenas observando. A luz do quarto ainda está acesa. Repouso a mão no coldre debaixo de meu casaco.

Ainda não.

*

Melissa me recebe com um sorriso sincero no rosto e me convida pra entrar. Eu devia ter trazido um presente, como sempre. Ela parece não notar o meu deslize e busca um suco de laranja na geladeira, enquanto eu aguardo sentado no sofá da sala. Eles estão terminando de reformar o apartamento. O rapaz não está. Ela volta com meu suco.

“Que pena. O Bruno acabou de sair. Dias desses ainda estava falando como fazia tempo que não te via, Carlos. Cinco minutos e vocês ainda se topavam por aqui.”

“É uma pena mesmo. Mande um abraço pra ele.”

Eu o vi sair e embarcar na moto, em frente ao prédio. Estava ali, no meu carro, há meia hora. Acho que Melissa sabe que eu sempre faço isso, mas não comenta nada. Ela me conhece.

“Tem falado com a mamãe? Ela esteve aqui anteontem. Me ajudou a escolher umas cores pro quarto.”

“Não. Como estão as coisas na faculdade?”, desconverso.

“Ah, indo né. Só vão me pagar bem mesmo a hora que eu terminar a pós. Enquanto isso, vou praticamente pagando pra trabalhar. Mas, é o jeito. Logo as coisas se arrumam. O Bruno foi promovido na concessionária, te contei?”

“Sim.”

Eu fico ali mais dez minutos, até o suco acabar, conversando amenidades. Melissa está bela como sempre, os fios de cabelo caindo sobre os ombros, pretos como os que eu tinha antigamente. Me despeço, com a promessa de que marcaremos um jantar com seu noivo.

Às vezes, eu gostaria que ela me chamasse de pai.

*

Normalmente, nos dias de folga eu vou ao cinema ou passo o dia com alguma puta no quarto que eu alugo próximo ao porto. Mas hoje eu passo as horas em casa, na frente da televisão, apenas trocando de canal, com o som mudo. Penso em Carina. A pequena Carina.

Dentro de alguns dias, os jornais sequer se lembrarão que ela existiu. Na época, foi um circo, como sempre. Agora, ela já está enterrada, e seu assassino, ainda à solta. Mas você tentou, menina. Você tentou. Deu algum trabalho pra ele, enquanto o verme a levava barranco abaixo, no meio dos arbustos. Aposto que gritou e bateu nele, com todas as suas forças, antes que ele a silenciasse com a mãe, rasgasse seu vestidinho vermelho e branco e a violentasse. Você sequer deve ter entendido o que ele estava fazendo. Tão inocente.

Eu sei que tentou, pequena. Eu sei.

Adormeço e, no sonho, seguro ela em meus braços. Ela sorri e se aninha em meu colo, segura, livre de qualquer mal.   

*

A rotina na casa dos pais de Carina parece ter voltado ao normal, embora a dor ainda seja visível no rosto de sua mãe. Ela se levanta todo dia às seis e meia da manhã e fica sentada na cozinha por meia hora, sem comer nada, falar nada, fazer nada. Fica apenas ali, sentada. Aguardando o marido sair da cama para tomar café e ir trabalhar. Eu sei no que ela pensa.

A vontade que eu tenho é de sair do carro, bater na porta e sentar ao lado dela. Não iria dizer nada. Apenas acompanhá-la. Compartilhar sua dor. A dor que eu também sinto, desde que abro os meus olhos pela manhã, a cada minuto do dia. A cada vez que eu passo em frente à casa do verme. Se ela pudesse ver o que eu vejo, a satisfação presente no rosto do verme, a sua liberdade desmedida ao andar pela rua, sem pudor algum… Tenho certeza que ela me pediria pra fazer o que é o certo. Sim. Eu não preciso que ela me peça.

Eu sei no que ela pensa.

*

Lobo me chama na sua sala logo pela manhã, quando me vê entrar na DP.

“Senta aí, Mendonza.”, diz ele, apontando para a cadeira em frente à sua mesa. Eu me sento e cruzo os braços. Ela acende ainda um cigarro antes de olhar pra mim e se sentar também. Pela expressão no seu rosto, imagino qual será o tom da conversa.

“O que você faz fora dessa delegacia não é do interesse meu. Nem podia ser.”, começa. “Mas a partir do momento em que você se põe em risco e me compromete também, sou obrigado a intervir. Você sabe do que eu estou falando, não?”

Eu fico calado. A fumaça do cigarro sai por meio de baforadas apressadas dos dentes amarelados dele.

“Todo mundo aqui ficou puto com o resultado do julgamento daquele escroto. Mas nós dois, eu e você, Mendonza, já temos anos e anos de casa, e sabemos que é assim mesmo. Nós prendemos, a justiça manda soltar. Nós esfregamos as provas nas caras deles, eles dizem que elas são ‘inconsistentes’. Paciência. Eu não gosto disso. Sei que você também não. Mas o nosso trabalho termina aqui. Ou até que o dito inocente faça outra cagada e nos obrigue a provar que os fudidos dos juízes estavam errados mesmo. Mas, enquanto isso, o que podemos fazer é aceitar o que esses putos decidiram e deixar que os promotores ou quem quer que seja tentem convencê-los do contrário.”

Apenas concordo com a cabeça. Lobo olha pra mim com impaciência, como se esperasse que eu discutisse ou irrompesse em um ataque de fúria contra a injustiça cometida fora daqui. Minha indiferença o deixa mais nervoso ainda.

“Você é um dos melhores investigadores que eu tenho aqui nessa bagaça. Tem os seus problemas, mas quem não tem? Eu só não posso deixar que você continue com essa merda. Aparecendo todo santo dia na porra da casa do cara, de manhã, de noite, a hora que seja. E, além do mais, nem fazendo questão que ele não te veja! Que merda é essa?”

“Estou fazendo o meu trabalho, doutor.”

“O teu trabalho? Você tá louco, é isso? O teu trabalho é aqui dentro. E você não tem mais nada a ver com aquele puto. Se decidiram soltar o cara, não é problema nosso.”

“Ele é culpado. O senhor sabe disso. Ele vai fazer de novo. Eu sei que vai.”

Lobo abaixa a cabeça e passa as mãos pelo cabelo ralo. Respira fundo. O cigarro está no fim, quase queimando seus dedos, mas ele não nota.

“Escuta aqui, Mendonza. Eu sei que foi uma puta injustiça com a guria, com o teu trabalho. Mas você é um profissional. Não pode se envolver assim. Porra, eu nem precisava tá te falando isso! Que merda! O advogado dele me ligou ontem aqui dizendo que vai meter um processo contra a gente porque um policial está coagindo o cliente dele. Isso sem dizer nas outras merdas que eles já tinham engatilhado, danos morais, essas coisas todas. Agora, o cara vai comprar verdura no mercado e tá lá a porra do policial atrás. Vai na farmácia e o cara tá do outro lado da rua. Vai dormir e a merda do carro do policial tá estacionado na esquina! Caralho! Eu te proíbo de chegar perto desse puto, Mendonza! Filho da puta, cigarro do caralho!”

Lobo joga a bituca no chão mesmo, ao lado da mesa. Agita os dedos queimados. Levanta e dá as costas pra mim, olhando pela persiana para o pátio da delegacia.

Volta a me encarar.

“Se você não tá conseguindo lidar com essa situação, eu te dou uns dias de folga e você vai arejar a cabeça longe daqui. Sei lá, vai pra praia, se enfia no teu apartamento, mas se mantém longe daquele puto. Você tem vida própria, deve ter. Eu disse pra aquele advogado de porta de cadeia que ele e nem o cliente dele iam mais se incomodar. Entendeu?”

Eu faço que sim com a cabeça e, antes que ele possa dizer mais algo, me levanto e saio da sala, em silêncio.

*

“Fazia um bom tempo que a gente não se via, hein, querido?”

Rosana cheira a perfume barato, loção de babosa e vodka. Ela se joga no colchão manchado, em cima da cama, e desamarrra o laço que mantém os cabelos castanhos presos sobre a cabeça. A pele negra dela fica à mostra, encoberta apenas por uma mini saia minúscula e uma blusa regata. Pergunta se eu tenho alguma bebida pra oferecer. Eu digo que não.

“E o que você trouxe nessa bolsa aí, meu anjo?”

“Uma coisa pra você usar.”

Ela me encara com curiosidade, as mãos apoiadas no colchão, as pernas abertas, convidativas.

“Adoro quando você faz os seus joguinhos. Vem cá , vem, meu homem, vem. Só de te ver assim, de pé na minha frente, você já me deixa com tesão.”

Rosana senta à beira da cama e abre o zíper da minha calça. Meu pau some dentro de sua boca, enquanto ela usa as mãos para abaixar o jeans. Eu sinto nojo e aversão, mas deixo que ela cumpra seu papel, até que a afasto e faço com que deite na cama. Pego o conteúdo da bolsa e jogo na direção dela.

“Vista isso.”

“Humm… meio pequenas pra mim, não?”

“Vai logo.”

“Tá bom, tá bom.”

Ela veste o pequeno vestido com dificuldade, contrariada.

“Essa calcinha não vai entrar nunca… e não precisa também, né? Pronto. Não sabia que você gostava dessas coisas. Tá bom assim? Você quer que eu fale alguma coisa em especial também? Essa menininha é toda sua, querido.”

Eu tiro a calça e a cueca e avanço sobre ela. Rosana se agarra em mim e geme alto, enquanto eu meto nela. Enlaça as pernas em volta da minha cintura e agarra o meu pescoço.

“Nossa, isso, vai, mete, mete, forte, isso…”

Eu ignoro a voz dela e penso naquela noite, às margens do rio. O delicado vestinho vermelho e branco sendo rasgado, para que a inocência intocada daquela pequena criança fosse violada pelos desejos doentios do verme. Ele a subjuga e deita por cima dela, o membro duro invadindo o corpo de anjo. Ela grita, pede socorro, Rosana grita, chora, mas ninguém a ouve. Ninguém presta ajuda. Ela está sozinha. Sob o controle total do verme, que leva as mãos até o seu pescoço delicado e aperta, esgana, até a deixar sem ar,

Pobre menina. O verme continua a saciar sua vontade, no corpo já sem vida. Instantes depois, ele pega o que restou da criança e a joga no rio, bastante cheio àquela época do ano. Some. Ninguém o vê sair. Volta para casa, crente de que irá permanecer impune.

Mas não vai. Não, pequena, ele não vai.

Saio do apartamento e deixo Rosana para trás. Não me preocupo em trancar a porta. Quando a acharem, não vai importar mais.

*

O verme me vê entrar pelo corredor e eu tenho que disparar um tiro pra impedir que ele corra até os fundos. Eu o atingo na coxa direita e ele se joga de encontro à parede, batendo com a cara na divisória de compensado. Os seus gritos ecoam pela casa, saindo pela janela aberta do quarto. Eu não me preocupo em ser discreto. Agarro seu colarinho e o levo até a cozinha, arrastado. O verme tenta se agarrar aos móveis, em vão. Berra como o porco imundo que sabe que está sendo levado para o abate.

“O que você quer? Me solta, me solta, ME SOOOOOOOOOLTAAAAAA!!!”

“Cala a boca, verme.”

Eu o encosto contra a pia e miro o revólver calibre 32 contra a sua cabeça. Ele chora, virando o rosto para o lado.

“Você achou que ia se dar bem, não é verme?”

“Que merda você tá falando? Escuta, eu sou inocente, não tenho nada a ver com aquela menina… você não pode fazer isso, não pode…”

O sangue salta contra a portinhola branca quando eu o atinjo com o cano da arma na testa. Escuto o som das freadas na frente da casa, as sirenes e os passos apressados. Eles chegaram rápido.

Melhor assim.

“Não me mata, por favor, não, não, não…”

“Tarde demais, verme.”

A porta da entrada é derrubada, atrás de nós. Dois segundos depois, o som do tiro.

Descanse em paz, pequena.

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Azul e vermelho 24 novembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in rafael waltrick, simulacro.
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Eu não gosto do jeito como aquele homem me olha. Volta e meia, ele me observa sob o ombro de Ibrahim, o rosto impassível, me analisando e amaldiçoando em silêncio. Os dois estão discutindo há mais de hora. Ao contrário do que Ibrahim disse, parece que o maldito não parece muito propenso a aceitar a minha proposta. Eu queria ir até lá e esfregar o dinheiro na cara dele, mas Ibrahim me proibiu. Esses sujeitos são estranhos e perigosos, disse. Já lidei com gente muito pior.
Eu apenas espero, esvaziando a quarta long neck de cerveja, enquanto uma multidão se acaba de dançar lá embaixo, o som da música eletrônica estourando em meus ouvidos sensíveis. Viajei 14 horas de avião pra chegar até aqui e não vejo a hora de sair dessa merda de lugar.
Ibrahim dá as costas para o nosso vendedor reticente e vem até mim.
“Tá difícil. O cara não quer saber de nada disso. Diz que é muito arriscado. Só atende quem conhece.”
“E daí? Ele te conhece, não?”
“Humm… digamos que temos um grande amigo em comum. Mas ele não é bobo. Sabe que o bagulho não é pra mim.”
O bagulho a que Ibrahim se refere equivocadamente é uma poderosa droga sintética, que muitos sequer acreditam que existe. É fabricada somente aqui, em Tel Aviv. Eu tenho os meus próprios contatos e recursos. Eu sei de coisas que os outros não sabem. Por isso me dei ao trabalho de vir até essa espelunca, no meio do nada.
“Diz pra ele que eu pago o dobro do que ele pede. E que é pra me dar duma vez essa porra e parar de me fazer perder tempo.”
“Tem certeza disso? Tem toda essa grana aí?”
“Vai lá.”
Minha cabeça dói. Eu usei algo antes de sair do hotel? Não me lembro.
Tento ignorar a música alta tapando os dois ouvidos com as mãos. Um grupo de jovens mulheres próximo do bar me observa com cara de espanto, achando que sou maluco. Elas cochicham entre si.
Ibrahim volta. Pisca pra mim. Eu puxo um envelope debaixo da jaqueta, tiro algumas notas de dólar – várias notas, na verdade – e entrego pra ele. O judeu, ressabiado, esconde o dinheiro com rapidez. Volta até o homem, que continua me olhando desconfiado. Entre os flashes de luz que pipocam a cada segundo, o negócio é feito. Eu tento esconder a ansiedade, mas assim que Ibrahim chega perto de mim, o puxo pela camisa e praticamente o arrasto para fora do lugar. 
Entramos no carro, o BMW de Ibrahim. Tel Aviv é um show de cores e sons, que se arrastam à medida que o veículo acelera na avenida principal. Mesmo durante a madrugada, a praia está repleta de turistas, jovens na grande maioria, pulando e cantando ao redor de fogueiras.
Nunca tinha visto isso antes.
“Cadê?”, pergunto, minha voz se esvaindo pela janela aberta.
“Aqui. Mas presta atenção. Parece que tem umas manhas pra usar o negócio.”
Ele me passa duas pequenas pílulas em forma de losango, uma azul, a outra vermelha, guardadas dentro de um plástico.
“A azul é pra começar o barato. A vermelha, pra suspender o efeito. Mas ele disse que não é nada garantido. O negócio é meio experimental. Já teve gente que tomou e não deu pira nenhuma.”
“Você só pode tá brincando comigo. Quem é esse cara? Morpheus?”
“Eu achei que você já tava por dentro da parada. Ele disse que não era pra mim tirar os olhos de ti. Pelo menos enquanto você tiver doidão. Tem gente que se esquece da tal pílula vermelha e fica dias viajando.”
“Eu não preciso de babá. Me deixa perto do hotel. Tenho que pegar um ar.”
“Tu que manda, irmão. Mas eu ainda acho que era bom ficar por perto. Então? Não vai tomar o bagulho? Tava tendo um filho lá antes por causa desse negócio. Me deixou curioso.”
Eu olho para o invólucro em minha mão. Guardo as pílulas no bolso.
“Depois eu te conto como foi. Se a gente se ver de novo.”
Abro toda a janela do carro e coloco o rosto para fora, sentindo o vento passar forte por mim e me fazer perder o fôlego. Ibrahim me deixa a duas quadras do Davi Intercontinental. A brisa do mar traz um cheiro adocicado, de fruta. A minha cabeça dói. Preciso de um remédio.
O saguão do hotel está vazio. Cumprimento as recepcionistas com um sorriso falso e sigo até o quarto. Uma garrafa de vinho branco me aguarda. Mais uma. Tomo uma ducha quente, visto o roupão e encho uma taça. As pílulas estão em cima da mesinha de vidro. Tiro as duas de dentro do saco plástico. Não têm cheiro. Não há qualquer inscrição sobre a superfície.
Quatorze horas de viagem e 3 mil dólares por dois comprimidos. É bom que valha a pena.
Coloco a pílula azul na boca e a faço deslizar para dentro da garganta com um gole de vinho. Então, adormeço.

Dê a ele uma banana, se quiser, mas o faça ficar quieto!

des.per.tar
Verbo transitivo direto.
1.Tirar do sono; acordar, espertar.
2.Excitar, estimular.
3.Dar origem a.

Quanto tempo eu dormi?
Vou até a varanda. Ainda não amanheceu.
Eu tomei a pílula?
Minha garganta está seca. Pego a garrafa de vinho em cima da mesinha de mogno, mas ela está vazia. Não me lembro de ter tomado mais do que uma taça. Pelo menos, a dor de cabeça passou. Visto uma roupa. Da varanda aberta, ouço o som de asas. Malditos ouvidos. Estou escutando muita coisa ultimamente.
As recepcionistas já não são mais as mesmas. Na verdade, até o saguão do hotel parece diferente, embora eu não tenha perdido um minuto sequer antes admirando os móveis e lustres de luxo. Vou até o bar e peço uma água. O garçom, um rapaz esquálido e com uma camisa mal passada, me olha com estranheza e pergunta se estou me sentindo bem.
“Melhor do que nunca”, respondo.
Saio do hotel. Ligo para Ibrahim do celular, enquanto observo as crianças andando de bicicleta, àquela hora da madrugada. O aparelho emite um zunido estranho e então completa a ligação.
“Fala, Ferdinand.”
“É o Rubens.”
“Rubens? Não conheço nenhum Rubens.”
“Que merda é essa? Ibrahim? Coloca o Ibrahim na linha.”
Silêncio. A mesma voz volta a falar no telefone.
“É você, cara?”
“É o Rubens. Esse não é o telefone do Ibrahim?”
“Não, é o Matheus. Onde você tá?”
“Matheus? Quem tá falando?”
“Porra, você tá doidão. Tá no hotel? To indo aí te pegar. Dá um tempo e fica de boa.”
Quem diabos é Matheus? Procuro o nome de Ibrahim na lista de telefones do celular, e não encontro. Devo ter ligado para o número errado. Saio caminhando pela calçada, aproveitando o ar fresco e agradável.
Pra que lado mesmo é a praia?
“Ei, camarada.”
Olho para os lados, à procura da voz, e não encontro ninguém.
“Aqui, aqui embaixo.”
Ah, sim, um cachorro. Um maldito buldogue. Sentado sobre as patas traseiras, no meio fio, falando comigo.
Eu tomei a pílula?
“Tem um cigarro aí?”
“É comigo?”
“Tá vendo mais alguém aqui?”, responde o cachorro, me encarando.
Realmente, não há mais ninguém por perto. Eu olho ao redor, tentando achar alguém que possa me dizer se eu estou realmente vendo coisas ou não. “Que eu saiba, cachorros não falam, e muito menos fumam. Então, cala a boca e se manda daqui”, digo para o animal.
“Ah, claro, você é mesmo um sabichão. Tá certo. O louco aqui sou eu mesmo.”
Eu me aproximo dele e me abaixo, apoiando as mãos nos joelhos. Só pode ser um truque.
“Que merda você tá fazendo aqui? Você é uma alucinação?”
“Não pergunta pra mim, colega. O cara achou uma boa me colocar aqui pra conversar contigo. Eu só faço o que me mandam fazer.”
“Que cara?”
“O escritor, porra. Ou o que lá ele acha que seja.”
“Do que você tá falando?”
O buldogue suspira – um animal pode suspirar?
“Se liga. Se você prestar bastante atenção, pode ouvir o barulho das teclas…”
Antes que eu possa pensar no que o cachorro está falando, um carro para ao meu lado e buzina. O animal aproveita a deixa e sai balançando o rabo, as pernas gordas se deslocando devagar na calçada, como se nada tivesse acontecido. Um jovem abaixa o vidro do carro e me chama com a mão.
“Falei pra você esperar lá no hotel, cara. Fiquei rodando à toa. Chega aí.”
Eu vou até o veículo e olho o rapaz pela janela.
“Quem é você? Onde está o Ibrahim?”
“Cassete. Entra aí. Eu sabia que tinha que ficar de olho em ti.”
Eu subo no carro, no banco do passageiro. O rapaz liga o motor e avança pela avenida, desviando dos outros carros que parecem passear pela rua a trinta quilômetros por hora.

Os batimentos estão acelerados, doutor. Está monitorando?

“Caralho!”
“Que foi?”
O rapaz olha pra mim assustado, os cabelos longos sendo jogados para trás pelo vento.
“Você não ouviu isso?”
“Ouviu o quê, cara?”
“Essa… essa voz. Falando de batimentos, coisa assim.”
Eu levo a mão em direção ao rádio, pra ver se ele está ligado, mas não há rádio algum.
“Você tá doidão mesmo.”, se limita a dizer o jovem.
“Tem algo estranho acontecendo. Um cachorro veio falar comigo ali na calçada. Queria um cigarro.”
“Sim, sim, me conta uma novidade. Desde quando você tá assim?”
“Acordei agora a pouco. Achei que a pílula não tinha dado efeito nenhum. Nem me lembro de ter tomado.”
“Que pílula, cara?”
“A pílula azul, porra! O Ibrahim me deu horas atrás, compramos naquela boate perto do porto de Jahfa. Cadê ele, afinal? Preciso falar com ele.”
“Não viaja. Fui eu que te levei até lá.”
Eu fico quieto por um instante e tento pensar, mas a minha cabeça volta a doer. O rapaz que dirige o carro olha pra mim e balança a cabeça. Ele tem uma arma enfiada no cinto da calça. É uma cilada.
“Ei, que merda você tá fazen…”
Abro a porta do carro e me lanço pra fora, rolando pela rua. Fecho os olhos e apenas escuto o som das freadas. Me levanto e corro, desviando dos carros. Minhas pernas estão dormentes. Atrás de mim, já longe, ouço a voz do rapaz que diz se chamar Matheus. Eu apenas continuo correndo.
Então, o som de guitarras explode em minha cabeça. Eu me desequilibro e caio, ralando os dois cotovelos no concreto.

11.EXT.RUA MOVIMENTADA. NOITE

Os carros buzinam e desviam de RUBENS, que se levanta e volta a correr em direção à calçada. Ele está visivelmente desorientado. Olha para trás pra ver se está sendo perseguido. Tampa os dois ouvidos com as mãos. Chega até a calçada e esbarra em um casal que passa. Um RAPAZ DESCONHECIDO o empurra, em seguida.

RAPAZ DESCONHECIDO
Ei, doido, cuidado aí!

RUBENS corre pelo acostamento. As pessoas que caminham pela rua olham para ele, assustadas. Um POLICIAL, que toma uma latinha de refrigente, o vê passar a poucos metros.

POLICIAL
Que isso… parado aí!

RUBENS ignora a ordem e continua correndo. Ele grita e continua com as duas mãos nos ouvidos. Esbarra em um outro HOMEM DESCONHECIDO e cai. O HOMEM DESCONHECIDO para para ajudar e então RUBENS o agarra com os dois braços.

RUBENS
(gritando, lágrimas escorrendo dos olhos)
Você tá ouvindo isso? Manda eles pararem com isso!
Que barulho infernal é esse?

HOMEM DESCONHECIDO
Relaxa, cara, é só a trilha sonora.

RUBENS parece não entender o que O HOMEM DESCONHECIDO falou e então se levanta e volta a correr, momentos antes do POLICIAL chegar até o HOMEM DESCONHECIDO, que simplesmente levanta os ombros, em sinal de dúvida.

Um carro passa a alguns centímetros de mim e o motorista me xinga. O barulho infernal cessou, mas ainda mantenho as mãos nos ouvidos. Estou sem fôlego. Olho para o lado e, num relance, vejo uma multidão sentada lado a lado, no escuro, em pequenas poltronas. Os espectadores me encaram. De repente, não estão mais lá.
Dobro em uma esquina e passo por uma praça. Paro para recuperar o folego embaixo de uma árvore. Sem sinal do policial, ou do rapaz que diz se chamar Matheus.

Acho arriscado prosseguir. Desligue os neurotransmissores. Vamos ver como ele reage.

A pílula vermelha. Eu preciso da pílula vermelha.
Vasculho os bolsos da calça e não a encontro. Será que a deixei no hotel?
Eu tomei a pílula?
Alguém cheque meu cerébro.
Eu volto a correr, sentindo o suor escorrer em meu rosto e meu peito. Preciso voltar para o hotel. Preciso de um médico.
Preciso da pílula vermelha.
Meu coração dispara e eu caio no chão. A cabeça dói, mas eu não a bati.
Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeu cérebro.Alguémchequemeucérebro.Alguémchequemeucérebro.

Luz. Forte. Jaulas. Macacos. Sono. Preso.Humano branco olha eu. Humana branca olha eu. Humana branca passa a mão na cabeça minha. Bom. Bom macaquinho, diz ela. Bom. Passou, passou, diz ela. Eu gostar humana branca. Humana branca solta braço meu. Entrega bala. Vermelha. Doce. Bom.

A desgraça bate à porta 15 novembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in Citação, rafael waltrick.
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Era aquela a hora. Foi até a sala de jantar, puxou uma das cadeiras, pôs o pé direito em cima, apoiou-se no encosto e levou o outro pé, equilibrando-se com esforço. Em seguida, subiu na mesa, erguendo-se com a ajuda da corda que havia pendurado meia hora antes no gancho do teto que outrora sustentara o luxuoso lustre. Dali, olhou para baixo, e imaginou se a altura seria mesmo suficiente. Teria que ser. Não queria se machucar mais do que precisava. Ou correr o risco de falhar. Pisou com cuidado no canto da mesa, equilibrando-se com a corda. Colocou o laço ao redor do pescoço, que sustentava um chamativo colar de pérolas, chegando até o peito. Olhou para a estante logo em frente, focando a visão já fraca no porta-retrato do rapaz sorrindo. Ao lado da foto, dezenas de figuras esculpidas em vidros preenchiam o espaço da prateleira, coberta por uma resistente camada de pó. Segurou a corda com ambas as mãos, acima da cabeça. Fechou os olhos.

A campainha tocou. Um som estridente, impertinente, vindo da porta da frente. Abriu os olhos. Esperou. O som se repetiu. Ninguém, nas duas últimas semanas, havia batido à porta. Olhou para os lados, o peito batendo forte, imaginando se alguém não a havia visto de alguma janela e tentava a dissuadir de prosseguir aquela cena grotesca. Porém, seria impossível. A janela da cozinha, de onde podia se divisar o corredor que dava até a sala de jantar, estava tampada pela cortina grossa, na mesma posição que permanecera nos últimos três meses. Nova tentativa à porta da frente. Se quisesse mesmo prosseguir com aquilo, aquele era o momento. No entanto, aquele ser insistente já havia prejudicado a sua determinação, interrompido a ideia com a qual convivia nos últimos anos e que finalmente tivera forças de levar adiante.

Iria descer, atender quem quer que fosse, e voltar para onde tinha parado.

Tirou o laço do pescoço, abaixou-se com dificuldade, o vestido trancando nos joelhos, e desceu. Olhou para cima, a corda balançando acima da sua cabeça. Ajeitou o cabelo, criteriosamente montado em um coque sustentado com laquê, atravessou a sala de jantar, passou por outro corredor que dava até a sala de estar e abriu a porta, não antes que a campainha soasse pela quarta vez.

O menino – ou o que fosse aquela miséria travestida em ser humano – segurou as duas mãos em frente da camisa maltrapilha e, quase num lamúrio, fez o pedido para a mulher de idade vestida com zelo á sua frente.

“Pão”.

Foi só o que falou. Por um momento, ela não soube se aquilo havia sido uma afirmação, uma indagação ou o resto choroso de algo que o menino havia falado antes, mas que não fora ouvido.

“O que você quer, garoto?”, perguntou ela, não escondendo a impaciência, metade do corpo escondido ainda dentro da casa.

O menino nada falou. Ficou ali, a cabeça baixa, o ódor nauseabundo de urina, queijo estragado e ovo podre emanando de seu corpo franzino. A mulher levou a cabeça para fora da casa, olhou para os lados, viu se mais alguém observava aquela a cena. No entanto, a rua estava deserta àquela hora, a não ser por alguns carros e jovens de bicicleta que passavam adiante.

“Vai pra longe daqui, garoto. Você está fedendo.”

“Pão”, respondeu o menino, como se aquilo fosse a única palavra que pudesse ou soubesse falar.

Ela o observou, atenta. O cheiro fétido a mandava fechar a porta antes que se intoxicasse, mas o rosto do menino, os olhos que a fitavam, fundos, cobertos por sujeira e gordura, impediam que deixasse aquele projeto de ser desemparado na rua, sem ao menos ter seu simples pedido atendido. Suspirou.

“Espere aqui, garoto. Eu já volto.”

Fechou a porta, atravessou a sala de estar, passou pelo corredor, andou pela outra sala, evitando olhar a corda que jazia suspensa ao lado da mesa, e chegou até a cozinha. Abriu o armário e de lá tirou o pão de forma, meio duro e mofado nos cantos. Colocou-o sobre a pia, pegou a faca e tirou uma fatia. Levou até a porta da frente e a entregou para o garoto. Ele não agradeceu. Ali mesmo, enfiou o pão na boca, limpando os lábios com a palma da mão e mastigando com pressa. Engoliu tudo em segundos, esboçando um pequeno sorriso ao terminar.

A mulher observou a refeição rápida e, por mais que tentasse ignorar, sentiu pena e tristeza por aquela pobre alma. O garoto ficou ali, à frente dela, como se aguardasse algo mais.

“Então, garoto, como é que se diz?”

“O… obri… gado”.

“Eu não ouvi.”

“Obrigado, dona.”

“É senhora. Volte pra casa e tome um banho. Você está imundo. Sua mãe deve ser uma desleixada para te deixar sair por aí nesse estado.”

O garoto concordou com a cabeça. Virou-se e desceu os degraus em direção à cerca. Antes que chegasse ao pequeno portão de ferro, ouviu a voz da mulher atrás dele.

“Ei, garoto. Onde você mora?”

O menino olhou para ela e apenas levantou os ombros.

“Você mora em alguma casa, não?”

Ele fez que não com a cabeça.

“Onde está a sua mãe?”

“Não tenho.”, respondeu, baixinho.

Ficaram os dois ali, parados, frente a frente, a dois metros de distância. A mulher olhou o garoto dos pés à cabeça, não deixando de notar o estado deplorável das roupas e os pés descalços. Pensou.

“Espere um pouco”, disse.

Foi até a sala de estar, subiu na mesa, esticou o braço até o gancho e tirou a corda. Rumou até a despensa e a jogou a corda em cima das caixas. Voltou até a frente da casa, onde o menino aguardava, exatamente na mesma posição de antes.

“Certo. Venha cá, garoto. Está frio aí fora e vai chover daquia pouco”, falou a mulher.

 

A primeira impressão que teve é que o menino devia estar sem comer há dias. A segunda é que ele não tomava banho há muito mais tempo. Sentou ao lado do garoto na pequena mesa de fórmica da cozinha, o observando devorar um bolo de cenoura, alguns sanduíches e um pacote de bolachas sortidas. Comia tudo sem parar pra beber e, se não fosse a orientação da senhora ao seu lado, acabaria engasgando. A mulher havia aberto a janela e a porta que dava para os fundos da casa, a fim de deixar que o fedor circulasse um pouco.

“Você tem nome?”, perguntou ela.

O menino a ignorou. Pegou o copo de suco de laranja com as duas mãos e o levou até a boca, deixando o líquido escorrer pelo canto dos lábios.

“Ei, estou falando com o senhor, jovenzinho”, insistiu a mulher.

“Meus irmãos me chamam de Tinho”, disse o garoto, enquanto avançava em mais um pedaço de bolo.

“Seus irmãos? E onde eles estão?”

O menino encheu a boca e engoliu tudo em seco. Ainda com os farelos aparecendo em meio aos dentes, respondeu, abaixando a cabeça, com vergonha.

“Eles vivem por aí, na rua. Me batem. Eles são maus.”

A muher olhou bem para o garoto e, embaixo da sujeira que saltava sobre a pele do pescoço e dos braços, pareceu ver mesmo algumas manchas roxas.

“Depois eu vou contigo e te deixo em algum lugar. Onde eles vão cuidar de ti. Mas, primeiro, vamos se livrar dessas roupas. Eu já te falei que você está imundo? Vem aqui fora”, disse a mulher, levantando-se e indo até o pátio da casa, onde a grama por cortar se estendia como um tapete felpudo por longos metros.

O garoto a acompanhou. Um muro alto guardava todo o jardim, que parecia abandonado, com alguns vasos de flores jogados no mato.

“Tira essa roupa.”, ordenou a mulher.

O menino olhou para ela em dúvida. Abraçou a si mesmo com o braços, como se quisesse se defender. Desviou o olhar para o chão e permaneceu em frente à porta que dava para a cozinha.

“Vamos, você não vai ficar andando com esses trapos sujos aí pela minha casa. Se livra disso agora”.

A mulher tomou a iniciativa e levantou os braços do garoto, tocando com asco na camisa rasgada e pastosa. Em seguida, tirou as calças e a cueca do menino, tapando o nariz com os dois dedos para se defender do mau cheiro. Pegou as roupas e as jogou em um latão de lixo ali fora.

“Pronto, vamos pro banheiro. Pelo visto esse fedor não era das roupas só”, disse ela, empurrando o garoto pelas costas.

 

O banho durou uma hora e, ao fim dele, a mulher estava com os dois braços doídos, após ter esfregado todo o corpo do garoto com força. A sujeira parecia estar impregnada na pele do menino. Ela o deixou enrolado em uma toalha, dentro do box, e foi até o quarto do filho. Mesmo depois de tanto tempo sem tocar nas roupas, encontrou um pijama sem nenhuma prega, em meio às bolas de naftalina. O tamanho iria servir, já que o pequeno andarilho não deveria ter mais do que oito anos. Vestiu o menino no banheiro mesmo, penteando o cabelo dele com força, para desenozar os fios, sob protesto de resmungos e lamúrias. Limpo e com uma roupa decente, ele até parecia um belo menino, percebeu a mulher. Na verdade, até mesmo parecido com o próprio filho, quando ele tinha aquela idade. O pensamento a fez relembrar do que havia preparado pouco tempo antes, no momento em que o garoto tocara na campainha. Ela o fitou por alguns instantes e o abraçou, deixando algumas lágrimas escorrerem e mancharem o rosto maqueado. O menino deixou a cabeça cair sobre o ombro dela, enlaçando seu pescoço. No ouvido da senhora, disse um frágil “obrigado”.

 

Ela deixou o garoto esperando no quarto de visitas e foi até a janela da frente. Já havia escurecido. Poderia esperar para levar o menino no dia seguinte até o Conselho Tutelar. Atrás da cortina, ela viu dois jovens do outro lado da rua, na esquina de um prédio, que pareciam encarar a casa dela. Fechou a cortina, ignorando os rapazes. Sua cabeça estava centrada no garoto que recebera e que, tinha certeza, não havia chegado até ela por acaso. O momento em que isso ocorrera e a semelhança com o filho não a deixavam pensar de maneira diferente.

Voltou até o quarto, preparou a cama e colocou o menino embaixo das cobertas. Ele apenas concordava com tudo que ela falava e fazia, deixando-se conduzir pela senhora.

“Eu vou estar no quarto ao lado. Qualquer coisa, é só bater na porta. Descanse bem. Amanhã cedo vamos dar uma volta.”

O garoto concordou dando um beijo no rosto da mulher. Ela corou e, para que ele não visse suas lágrimas, saiu do quarto, indo até a sala onde estava o porta retrato com a imagem do filho. O segurou entre as mãos e apertou-o contra o peito. Ficou na sala por alguns minutos e então foi dormir. Antes, passou no quarto de visitas e, pela fresta da porta entreaberta, viu o menino ressonar, deitado de lado.

 

Acordou com os passos no corredor e o barulho de algo chocando-se contra uma das cadeiras da sala de estar. Levantou, tateando a parede até localizar o interruptor. Saiu do quarto e encontrou o garoto em meio à escuridão, mexendo na fechadura da porta da frente da casa.

“O que você pensa que está fazendo, mocinho?”, disse, alto o suficiente para ser ouvida.

O menino chegou a sair do chão com o susto. Encostou-se contra a porta, virado para a mulher, acuado. Olhou para os lados, procurando alguma saída, mas foi surpreendido pela velocidade daquela senhora ágil, mesmo com a idade.

“Não pense que você vai sair por aí no meio da noite. O que diabos deu em você?”, ralhou a mulher, segurando o garoto pelo pulso.

O menino tentou se desvencilhar, mas desisitiu logo em seguida, frente à força da mulher. Abaixo a cabeça e fitou o chão, naquele gesto que já havia se tornado habitual.

“Vem, volta pra cama. Você parece um bicho do mato, que não sabe viver dentro de casa. O que te deu na cabeça?”, disse ela, levando o garoto de volta pro quarto.

No caminho, mudou de ideia e levou o menino para dormir junto com ela. Deitaram os dois, lado a lado, e uma sensação estranha a invadiu, antes de adormecer. Quanto tempo alguém não dormia com ela naquela cama? Não se lembrava. Deu uma última olhada no pequeno corpo rente ao seu, para ver se ele estava bem coberto. Em seguida, fechou os olhos e dormiu, enquanto o garoto fingia fazer o mesmo.

 

Meia hora depois, quando teve certeza que a senhora estava dormindo, o menino desvencilhou-se da coberta e dos lençóis com calma, pôs os pés no tapete e caminhou vagarosamente pelo quarto. Percorreu a casa na escuridão e chegou até a sala de estar. A chave da porta estava na fechadura, acompanhada de outras penduradas no chaveiro. Girou a maçaneta sem emitir qualquer barulho, como havia sido treinado. Abriu a porta e fez o sinal.

 

A mulher acordou ao sentir a coberta ser arremessada para o lado do corpo, mas antes que pudesse sequer abrir os olhos, o bastão de ferro bateu com violência contra suas costas e duas costelas se partiram. O grito de dor ficou engasgado em sua garganta e, mesmo em pânico, levou as mãos para o lado, tentando proteger o menino. Uma mão forte agarrou seus cabelos e a jogou no chão. Apesar da escuridão, conseguiu ver os dois tênis ao lado do seu corpo, que se lançaram, alternadamente, quatro vezes contra o seu peito e a barriga.

Outra pessoa entrou no quarto.

“Vai buscar uma corda pra amarrar essa vaca”, disse uma voz de homem, dono dos sapatos e do bastão de ferro.

“E onde eu vou arranjar a merda de uma corda?”, respondeu o outro.

“Se vira, seu puto. Vamo fazer a limpa e se mandar logo daqui”.

O segundo homem, na verdade um jovem de 17 anos, saiu do quarto e correu pelo corredor, chegando até a sala. O garoto estava ali, sentado no chão, ao lado da estante. Estava com a cabeça mergulhada entre os braços. O jovem foi até ele e fez um afago rápido na cabeça.

“É isso aí, maninho. Ficamos te devendo mais essa. Assim vamos longe.”

Saiu dali e foi até a cozinha. Mexeu em algumas das gavetas. Na despensa, achou a corda jogada, em cima das caixas.

A obra-prima 4 novembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in Gárgula, rafael waltrick.
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Mesmo após tanto tempo, tenho me visto pensando em Marcel com certa frequência nesses últimos dias. Lembranças e imagens que eu sepultara desde criança insistem em atravessar as profundezas da terra e vir à tona, inundando o ar fresco com o odor fétido de um trauma reprimido. Não espero que alguém chegue a ler essas memórias. Escrevo essas linhas, sob a luz fraca da vela no canto da mesa, para mim mesmo. Talvez, ao reviver essas lembranças, eu encontre uma saída para combater e entender o próprio mal que me atormenta e que, acredito, possui relação direta com os trágicos fatos ocorridos trinta anos atrás.
Minha admiração para com Marcel não era fruto somente de seu talento, da sua arte. Eu o via como o irmão mais velho que eu perdera logo nos primeiros anos de vida, um homem cujo senso de moral não se rebaixava aos interesses espúrios e antiquados difundidos pelos poderosos da Igreja. Marcel amava sua arte e somente a ela se submetia. Talvez por isso mesmo tenha chegado aos quarenta anos sem a companhia de uma bela esposa, mesmo que as donzelas da vila sonhassem em lançar-se aos seus braços. Houve Lisana, é claro, a linda e sofrida Lisana. Pobre mulher.
 A casa de Marcel, o resto corroído de uma mansão herdada após a morte dos pais, se destacava no topo de uma colina ao sul do pequeno vilarejo, de onde podia se observar todas as demais construções que se espalhavam tímidas e irretocadas pelo tempo. Florença ficava a cerca de oitenta milhas dali, evitada pelos moradores do povoado que ainda detinham-se incrédulos em frente às construções suntuosas que começavam a surgir. Eu posso dizer que era um dos únicos frequentadores assíduos da casa de Marcel, repleta de homens, mulheres e anjos imóveis, nas mais diversas posições e temas, esculpidos em granito. Ele havia transformado seu lar em um ateliê gigante, que se espalhava entre os vários aposentos, quartos e salas. Minha mãe ao mesmo tempo admirava e detestava aquelas esculturas, sendo que a flagrei dezenas de vezes soltando impropérios contra as figuras que emergiam do nada em meio à cozinha ou no saguão, dificultando a limpeza da casa. Meu pai apenas preocupava-sem entrar na outrora mansão o mínimo possível, cultivando os legumes e animais que em seguida acabariam na mesa de Marcel.
Eu gostaria de dizer que era o pupilo dele, mas na verdade nunca passei de um mero ajudante, um moleque curioso que servia de companhia e ouvinte para as obscenidades de Marcel. Ele havia prometido a meus pais me ensinar a pintar e, somente devido a essa promessa, permitiam que eu passasse tanto tempo ao lado daquele “artista libertino”, como todos na vila o costumavam chamar. Essa fama dúbia que o acompanhou durante toda a vida, porém, não impediu que ele fosse um artista requisitado em toda a região, inclusive por membros do alto escalão da Igreja que, embora não aprovassem seu comportamento desregrado, acabavam por procurá-lo para encomendar obras de cunho religioso, pois sabiam que, ao sul do Velho Continente, ele era o melhor. Marcel também tinha conhecimento disso e, portanto, cobrava o máximo que podia pelo seu esforço em atender aos desejos daqueles homens da Fé, que, afirmava, tinham dinheiro de sobra, recolhido através da ignorância do povo. “Ah, se eu pudesse dar olhos de verdade a esse anjo, pequeno Otávio, para que ele pudesse acompanhar os pecados que são cometidos a seus próprios pés… ficaria estarrecido, menino!”, afirmava ele. Eu era temente a Deus, claro, assim como sou até hoje, mas, mesmo naquela idade, não podia deixar de concordar com alguns trechos do discurso anticlerical de Marcel.
Portanto, foi com naturalidade que ele aceitou aquele pedido, feito diretamente por um dos mais altos sacerdotes de Florença. O homem, que se dizia próximo do próprio Papa, enfatizou que aquela deveria ser a obra definitiva de Marcel, um poderoso anjo de três metros de altura, esculpido em granito, que iria vigiar, do alto, a entrada da belíssima Catedral de Santa Maria del Fiore. Não sabia ele a que ponto suas palavras seriam levadas a cabo. Ninguém sabia, na verdade. Na ocasião, Marcel apenas aceitou o pedido, afirmou que entregaria a obra no prazo e desejou um bom dia para o sacerdote, não escondendo o regozijo por tratá-lo como um homem qualquer.
Logo a notícia da nova obra de Marcel, encomendada diretamente pela alta cúpula da Igreja, se espalhou e causou comoção no povoado. Alguns comemoravam e mandavam presentes para ele, desejando sucesso na empreitada, enquanto outros indignavam-se, defendendo que era sacrilégio delegar tal trabalho a um homem como aquele. A verdade é que Marcel, apesar de sua posição contrária a certos preceitos religiosos, não era dado a tantas extravagâncias assim como muitos afirmavam. Ele era um convicto boêmio, é verdade, e, talvez por uma ou outra ocasião, acabou recebendo a fama de desvirtuador de jovens donzelas, que recebia em sua casa para “discutir” os princípios e estéticas da arte. Fora isso, permanecia retirado em sua casa durante a maior parte do tempo, avesso a visitas, mesmo dos admiradores que vinham de toda a Europa para conhecer suas obras e seu método.
Eu, como era de se esperar, fiquei exultante e ansioso. Ajudei Marcel a preparar um dos quartos do fundo da casa, próximo à saída que dava para a pequena estrada que circundava o terreno, o que facilitaria o deslocamento da escultura após a sua conclusão. Um grande bloco de granito foi trazido para o meio do aposento por meia dúzia de homens. Tão logo eles saíram, Marcel deteve-se em frente ao bloco e ali ficou, praticamente imóvel, por cerca de uma hora, as mãos ora na cintura, ora cruzadas sobre o peito. Eu observava do canto da sala, sem ousar dizer palavra alguma. Sabia que ele estava lapidando, em sua mente, as formas, contornos e feições da escultura, um trabalho tão penoso quanto o subir e descer da estaca de ferro sobre a pedra. Enfim, ele disse, sem virar-se para mim, “Pequeno Otávio, se é um homem com asas o que aqueles carolas querem, assim o terão. Eu preferia fazer Cristo pregado na cruz, mas parece que isso não está na moda no momento. Temo o dia em que seria pago tão somente para dar vida à seres angelicais, insossos e assexuados. Enfim. De algum modo há de se tirar dinheiro daqueles homens”. Dito isso, pegou os instrumentos, arregaçou as mangas até a altura dos ombros e pôs-se a trabalhar, naquela que seria, como havia prenunciado o sacerdote, sua obra “definitiva”.
Não há muito o que se dizer sobre os primeiros dias que se passaram desde aquele momento. Tudo parecia ocorrer dentro da normalidade e assim o era. Minha mãe tinha que correr, a cada dia, com os curiosos que davam a espiar pela janela da casa, tentando observar algum vislumbre da obra. Marcel dormia até o início da tarde e passava algumas horas lapidando a pedra que, aos poucos, deixava transparecer alguma definição nos cantos do granito cinza. À noite, fartava-se de comer e beber vinho, nos dias em que não arranhava algumas notas no violino para Lisana, emoldurados pelas parreiras que cresciam livres nos fundos da casa. Eu tinha ciúme dela, admito. Não por sua beleza, por sua desenvoltura, por seus olhos azuis, mas por saber que, em pouco tempo, perderia meu mestre para aquela jovem, de uma das famílias mais abastadas do povoado. Hoje, tenho pena dela.
Dois meses se passaram e a escultura já tomava as formas do anjo vislumbrado por Marcel em seus pensamentos. Ele parecia esnobar o pedido do sacerdote, mas eu sentia que se esforçava naquele trabalho. Ao fim, certamente seria uma bela escultura, um anjo tal qual fiel algum vira em Florença até então. Um grupo do clero já havia vindo duas vezes acompanhar o andamento da obra e também não escondia a expectativa com os contornos que ganhavam vida em meio ao granito. Era possível visualizar a posição da escultura: o anjo de braços abertos, como se recebesse os fiéis, envolto pelas asas que se abriam e ganhavam o céu acima da cabeça da figura.
O que realmente aconteceu, então, permanece um mistério para mim até hoje. Só posso fazer conjecturas, suposições tiradas dos devaneios e balbucios de Marcel que se seguiram àquela noite. Lembro-me com exatidão. Havia sido um belo dia, mas, após o anoitecer, o céu irrompeu em tempestade, castigando a terra com pedras de gelo, ventanias e raios. Todo o telhado de nossa pequena casa de madeira praticamente voou durante a madrugada, e tivemos que nos abrigar na residência de um carpinteiro, nosso vizinho. Algumas lavouras tiveram perda total, restando apenas os resquícios das plantas e verduras que estavam prestes a ser colhidas. Em meio ao terror e o susto que se seguia a cada som retumbante de trovão, nenhum de nós pensou em Marcel, ou em sua integridade física, embora pudéssemos perceber que a tempestade se concentrava ao sul do povoado, justamente onde a mansão do meu mestre ficava.
No dia seguinte, enquanto meu pai e os moradores ainda contabilizavam as perdas, enfim desvencilhei-me dos braços de minha mãe e corri colina acima, ao encontro de Marcel. A casa, apesar da fragilidade dos anos e da violência da noite, havia resistido bem. Fui até o quarto no segundo andar, onde Marcel costumava dormir quando não sucumbia ao vinho no salão, e não o encontrei lá. Uma sensação estranha atingia meu peito ao andar por aqueles aposentos, um ar pesado que parecia orientar-me a não seguir adiante. Fui até a sala dos fundos e encontrei Marcel caído aos pés do que restara da escultura, as mãos ainda segurando firme um martelo e uma barra de ferro, que ele parecia ter arrancado da própria estrutura da casa. O anjo, antes de uma beleza já visível, ainda a ser realçada em últimos retoques, jazia em centenas de pedaços no chão. A escultura havia sido jogada ao solo, empurrada de alguma maneira. Pensei no vento que devia ter adentrado o aposento e perpetrado tamanha desgraça, mas, ao ver Marcel naquele estado, exausto, consumido pelo cansaço, percebi que a derrocada do anjo havia sido feita com mãos humanas. As mãos de meu mestre.
Tal constatação pode parecer absurda, já que despedaçar de tal maneira uma pedra como o granito não parece tarefa facíl ou possível para um homem apenas. No entanto, o próprio Marcel, ao ser acordado de seu desmaio por mim, apressou-se em declarar que aquele anjo era um sacrilégio e não deveria sair nunca daquela sala. Pelo menos foi o que consegui distinguir na fala imprecisa e balbuciante que saía da boca daquele homem, visivelmente atormentado. Quase não reconheci seu rosto, envolto em olheiras e rugas que saltavam acima dos olhos. “Eu vi, Otávio. Eu vi, tal qual estou lhe vendo agora, diante de meus lhos. Ele apareceu para mim durante a noite, e ordenou que eu trouxesse a verdade à tona. Não pude resistir. Oh, desgraça! Oh, demônio da revelação, nada posso fazer senão cumprir seus desígnios!”, falava ele. Eu não entendi nada, no momento. Perguntei se ele estava ferido, mas ignorou minha preocupação e, apoiando-se na barra que ainda segurava em uma das mãos, levantou-se, ordenando que eu fosse chamar com urgência os homens da vila, que deveriam lhe trazer a nova matéria prima. Fosse pelo medo, ou pela gravidade com que Marcel proferia cada palavra, eu corri até o povoado, trazendo comigo alguns homens, tão perplexos quanto eu. Todos nós vimos Marcel andar a passos apressados pela sala, fechando todas as janelas e gritando para que trouxessem logo a pedra, antes que a imagem revelada para ele durante a noite perdesse o foco.
Pobre mestre. Doía-me o coração vê-lo daquela maneira, mas nem eu imaginava o sofrimento que ainda sentiria a cada dia, enquanto ele tornava-se mais recluso do que nunca. Passou a ignorar minha presença e, pior, proibiu veementemente que eu ou qualquer pessoa tivesse acesso ao interior do quarto. Atravessou tábuas nas janelas que davam para o aposento e passou a trancar-se em companhia daquela pedra, aquela maldita pedra, durante todo o dia. Do lado de fora, eu podia ouví-lo falar horas a fio palavras desconexas, ora sussurrando, ora gritando, em êxtase.
A condição anormal de Marcel logo ganhou os ouvidos de todo o povoado e, logicamente, de sua amada, Lisana. Contrariando as ordens do pai, a jovem foi até a mansão, encontrando-me sentado rente à parede ao lado do porta que dava para o quarto, onde ouvia-se as batidas insistentes de Marcel na pedra. “Garoto, quero falar com seu mestre, agora”, disse ela, olhando com ansiedade para mim. “Ele não fala com ninguém. Desculpe-me senhora”, respondi. Ela balançou a cabeça, incrédula e, vendo a porta apenas encostada, jogou-sem em direção à sala. Eu ainda levantei-me e tentei segurá-la, enquanto tentava avisá-la que não deveria entrar, mas era tarde demais. As portas se abriram e Lisana irrompeu no aposento, encontrando Marcel em seu delírio enérgico. Eu apenas tapei meu rosto e fiquei ali fora, como se não quisesse ver a cena que se seguiria. Oh, pobre mulher. Acredito que se Marcel estivesse segurando a estaca de ferro na mão naquele exato momento, ela teria sucumbido frente ao golpe que recebeu, no rosto. Lisana caiu ao chão, sem antes exprimir um sonoro grito de horror. Pensei que ela gritava diante da reação de Marcel, mas hoje tenho certeza que o pânico era voltado à figura que se agigantava atrás do corpo extenuado do amante. Marcel ainda chutou seu corpo caído no chão e, puxando-a pelos cabelos, jogou-a para fora do quarto, próximo de mim. Ele falava xingamentos e ofensas que nunca havia pensado antes ouvir de sua boca. Deixou-a ali, jogada como uma boneca de pano, e trancou-se mais uma vez no quarto, as portas produzindo um estrondo que fez tremer o lustre dos corredores com o baque ao serem fechadas.
Ajudei-a sair daquela casa, descer a estrada de chão que nunca mais trilharia. A face em sangue da jovem causou revolta no povoado, mas, mesmo os pais de Lisana não quiseram enfrentar Marcel. Como passava a maior parte do tempo dentro da casa de meu mestre, eu não havia partilhado da impressão geral dos moradores que afirmavam, veementemente, que o artista estava possuído pelo demônio. Fui proibido pelos meus pais de pisar naquela mansão decrépita novamente. De longe, vi semanas depois o mesmo sacerdote que havia solicitado a escultura do anjo chegar até a casa, acompanhado de um grupo, para sair de lá correndo momentos depois, ao som dos impropérios de Marcel. Ele, como eu imaginara, não os havia deixado adentrar no aposento.
Lisana, em choque, não ousara comentar nada a respeito do que ocorrera ou o que vira no quarto. Eu tinha minhas próprias divagações a respeito e passava as noites em claro, imaginando que forma Marcel levantava naquele lugar e porque ela possuía tamanho poder sobre ele. Eu amava demais meu mestre para abandoná-lo daquela maneira. Então, enquanto meus pais dormiam, saí pela janela do quarto e lancei-me colina acima, em direção à casa, na madrugada. A lua resplandecia formosa no céu e eu tremia com medo de ser avistado por alguém ou, logicamente, pelo próprio Marcel. Entrei na mansão e, ao contrário do que imaginara, não ouvi barulho algum. Marcel deveria ter sucumbido, pelo menos algumas horas, ao cansaço. Encontrei-o na cozinha, dormindo sentado, os braços estendidos sobre a mesa. Havia restos de comida ao redor dele, exalando um horrível mau cheiro e, mais uma vez, senti pena e angústia por vê-lo daquela maneira. Pisando com cuidado, caminhei em direção ao quarto dos fundos, olhando para trás a cada momento, pensando na violência com que Marcel havia atingido Lisana, ao ter seu santuário violado.
As portas que se abriam para o quarto estavam fechadas, mas não trancadas. Empurrei-as com as mãos, deparando-me com uma escuridão apenas amenizada pelos ínfimos raios de luz que despontavam da lua pelas frestas das tábuas na janela. Um imenso lençol cobria a massa disforme no meio do aposento, escondendo pontas que se erguiam embaixo do tecido. Aquela sensação de opressão e mau estar que eu sentira após a tempestade me atingiu com força novamente e, não fosse o medo de encontrar Marcel me esperando após a porta, eu teria saído correndo pelos corredores, arrependido de minha empreitada, naquele exato instante. 
No entanto, mantive-me ali, diante daquele objeto coberto. Peguei uma das pontas do lençol e, respirando fundo, o puxei, fazendo-o deslizar pelo granito e cair ao chão, rodeando a escultura. Tampei a minha boca com as mãos, mas, mesmo assim, sei que meu grito ecoou por toda a casa. O que eu via diante de mim não era um anjo, mas sim a antítese do que aquele quarto havia abrigado até semanas atrás. A superfície de granito parecia brilhar em meio à escuridão, delineando com clareza as curvas daquele monstro alado prestes a ganhar vida, tamanha a perfeição com que era retratado. Dos pés da figura animalesca saiam garras, que pareciam se cravar no bloco de sustentação. A figura grotesca, com asas e dois chifres afiados na cabeça, estava agachada, os ombros jogando-se para a frente, em posição de vigília e, ao mesmo tempo, ataque. Os olhos abertos me fitavam, enquanto as presas se destacavam na boca semiaberta que, tenho certeza, sussurraria algo para mim se eu me aproximasse mais.
O resmungo de Marcel, vindo da cozinha, tirou-me do transe a que aquela imagem monstruosa me submetia. Sem preocupar-me em cobrir a escultura novamente lancei-me para fora, correndo pelo corredor em direção à saída. Corri colina abaixo, tropeçando e rolando pelo chão duas vezes. Cheguei em casa e pulei pela janela em silêncio, sem atentar para os ferimentos que haviam atingido meus joelhos. Ao me deitar na cama, a chuva caiu impiedosa, mesmo com o céu claro que eu havia visualizado momentos antes. Trovões irromperam pelos céus e ecoavam em meus ouvidos. Fechei os olhos, mas a imagem daquele demônio alado não me abandonava.
O corpo inerte de Marcel só foi descoberto cinco dias depois, quando um grupo do clero de Florença voltou novamente ao povoado, dessa vez com guardas, destinados a romper, de qualquer maneira, qualquer obstáculo que o artista impusesse. Não foi preciso. Encontraram meu pobre mestre soterrado sobre o corpo da escultura, que havia caído sobre ele e se partido em duas partes. A tragédia, apontaram, havia ocorrido naquela noite, depois que eu voltei para casa. Na mansão, a ventania havia sido tamanha que as tábuas haviam se desprendido das janelas e uma parte do teto tinha caído sobre o quarto, provavelmente atingindo a figura que, consequentemente, lançou-se sobre Marcel. Eles não deixaram ninguém entrar no quarto e, tampouco observar a escultura. Ela foi destruída ali mesmo, pelos guardas que acompanhavam o clero. Assim como Lisana, eu não falei nunca a ninguém o que tinha visto. Falo somente agora, através dessas linhas.
Refletindo sobre os acontecimentos, não sei exatamente a que conclusão chegar. De fato, houve uma tragédia naquela noite, embora as circunstâncias permaneçam nubladas. Marcel estava predestinado a sucumbir dianta daquela sua criação? Aquela era a revelação que ele havia visualizado naquela primeira noite de tempestade, antes de destruir o anjo que considerara maldito? Não ouso saber. Tenho minhas próprias fantasias para combater agora. Mesmo sem a tutela de Marcel, trilhei ao longo dos anos o caminho das artes e, agora, posso me considerar um pintor de renome. Moro com a minha família em minha própria mansão e poderia me julgar um homem afortunado não fossem as imagens que insistem em se repetir em minha cabeça noite após a noite, durante meus sonhos, após o temporal que atingiu toda a cidade na semana passada. Nelas, eu vejo a gárgula sorrindo para mim, lançando as garras em minha direção. Tentei abandonar as impressões em meu subconsciente, mas o painel já está quase pronto, repousando no ateliê, aqui ao meu lado. Vejo que a única maneira de me livrar dessa figura malévola é terminar a pintura, por mais que eu sinta medo e desespero ao dar os últimos retoques de pincel na imagem. Meus braços estão cansados e meu estômago dói. Há quanto tempo estou trancado aqui dentro? Eu não sei mais. Um vento frio entra pela pequena janela no teto e o pano que cobre o painel cai. A gárgula sorri para mim e lança suas garras em minha direção.