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Clichê. 6 dezembro, 2009

Posted by Marcelo Labes in Uncategorized.
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Primeiro ficou perplexo. Andava assustado pela casa, triste como cão sem dono. Ou melhor: como cão abandonado pelo dono. Dava pena vê-lo no sofá, a TV ligada, olhando para dentro de si.

Depois deu pra beber. Até de manhãzinha. Aquele bar imundo cheio de tristes como ele. Uma desgraça! Sentava na mesinha, no balcão, no meio-fio e bebia com sede. Sede de vingança.

Deixou de dormir, de comer, de falar. Largou o emprego e foi morar num 2 x 2 emprestado por alguém da família. Deixou de sair de casa e de abrir a porta. Morreu.

Filha dele que me disse: “Viu o que aconteceu com o pai?” e eu respondi que sim com a cabeça, e ela continuou: “Sabe o que realmente aconteceu? Ele queria era ter descarregado o revólver na cabeça da mãe, aquela puta!”

E enquanto eu imaginava que sempre nos vingamos mais em nós do que nos outros, pensei na Beatriz, na puta que era, o Rogério sabendo que ela andava saindo com todo mundo, eu pensando nas coxas grossas da Beatriz.

“Mas ela é tua mãe, pequena. Não esquece nunca disso”.

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Comentários»

1. Rafael Waltrick - 7 dezembro, 2009

Eu não gosto muito de textos curtos – acho que sempre fica algo a dizer ou desenvolver – mas acho que nesse caso a objetividade funcionou muito bem. O final deu um ar todo diferente à história que vinha sendo contada até então. Vale uma menção honrosa pro trecho “E enquanto eu imaginava que sempre nos vingamos mais em nós do que nos outros…” Engraçado como o tema vingança normalmente acaba associado ao tema infidelidade, como no conto da Marina.

2. Rodrigo Oliveira - 8 dezembro, 2009

pancada. talvez por isso eu não saiba muito bem como comentar. Mas é o tipo de texto que funciona melhor destilando aos poucos. Uma releitura mais calma. De preferência algum tempo depois. To lendo agora Werner Neuert (A Terra estava vazia e vaga) e me lembrou um pouco ele, esse final. Com aquele coisa continuando depois do texto, gota a gota, até embriagar. Gostei, se é que isso lá é comentário que se faça.

3. Fábio Ricardo - 10 dezembro, 2009

O Rodrigo cantou bem a bola do Neuert, a ligação ficou bem clara até pelo fato do Labes ser fã anunciado do cara. Eu, ao contrário do Waltrick, sou fã dos textos curtos. Literatura não pode ficar se assimilando aos pouquinhos, tem que ser tapa na cara mesmo.

E o grande valor desse texto eu creio que esteja justamente no seu início, onde vomita os fatos sem preocupações maiores de florear a morte.


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