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Clarice 6 dezembro, 2009

Posted by Marina Melz in marina melz, vingança.
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A entrada do lugar tinha um cheiro bom e nem parecia que era mesmo aquilo. Clarice estava decidida e, mesmo que fedesse, ela entraria. Só pensava em vingança, afinal de contas. Cachorro filho de uma puta. Não sabia ao certo como se vingar, mas só o cheiro doce da sordidez já parecia antecipar que a vingança viria. Antes de sair de casa, deu uma última olhada para tudo, como se soubesse que depois que ela voltasse as coisas não seria mais vistas daquela forma. Em cima da mesa, ao lado do sofá, o copo de conhaque com restos derretidos de gelo tinha as bordas molhadas e parecia chorar. E agora ela entrava. A vingança estava chegando, e ela parecia saber, mas não sabia.

Sentou-se. Antes de qualquer coisa, queria ver. Ver para crer. Viver para crer. A aliança ali, no dedo esquerdo. Guardou por um puritanismo insensato. Naquele lugar de cheiro doce, as argolas que se tinha nas mãos eram mesmo só argolas sem valor algum. O show já tinha começado e uma mulher solitária chamava a atenção. Não só por ser mulher, mas sim por ser solitária. A mesa era num canto meio escuro e logo os locais vizinhos foram tomados por engravatados, lésbicas e provavelmente casados querendo esconder os rostos – quem deve, teme.

Uma peruca loira, com uma máscara pequena veio servir mais uma dose de conhaque barato e Clarice começou a passar realmente mal. Presságios sempre foram presentes na sua vida.

As luzes se apagaram e o show de repente começou. Era ela ali, dançando com a bunda de fora. Os xis na conta de conhaque de Clarice aumentaram numa velocidade quase insuportável. Era doído demais, severo demais, angustiante demais e ela queria mais, mesmo que demais. Discretamente, chamou moça da máscara que chamou a moça morena que ela sabia que se chamava Alice. Ela sentou com olhar provocante e Clarice pediu se elas podiam ir para o quarto.

Alice era realmente linda, e não importava se ela se chamava mesmo assim. Clarice começou a se sentir excitada só em olhar para as coxas perfeitas caminhando em direção ao quarto. Teve a estranha sensação de ter visto um alívio nos olhos de Alice quando viu que era só ela, uma mulher, que estava a seguindo. A vingança chegava quase como a sensação de que um orgasmo vem: um formigueiro que começa no centro do corpo.

Assim que fechou a porta, Alice tirou a roupa e Clarice a interrompeu. Assustada, pediu que Clarice fechasse seu sutiã e ela pode sentir que mesmo o suor que molhava a pele perto da nuca tinha um saboroso cheiro de prazer. Respirou fundo para que aquele cheiro preenchesse seu pulmão.

Colocou as duas mãos sobre os peitos vestidos de Alice e ela esfregou as costas sobre os peitos de Clarice. Desceu as mãos, sentiu as costelas magras, a barriga levemente saliente que dava a Alice um insuportável ar de mulher normal, mesmo que perfeita. Parou e pediu que ela deitasse. Sutilmente, claro. Como só duas mulheres conseguem ser.

A arma que estava na bolsa, ou o canivete escondido no sutiã podiam fazer seu efeito naquela hora. Alice estava sentada e, desgraçada, parecia mesmo estar sentindo prazer pelo prazer que viria. De repente, Clarice se pegou pensando se ela não estaria realmente gostando. Na dúvida do que fazer, tirou a roupa e acendeu um cigarro, enquanto acariciava a parte interna da coxa de Alice com a ponta dos dedos e sentia arrepiar a pele sedosa. O silêncio que poderia ser ameaçador era só mais um elemento a preencher o ar. A libido podia quase ser tocada com as palmas das mãos.

Como num impulso e olhando nos olhos de Alice, Clarice lhe tirou a fina calcinha que cobria os poucos pêlos. Alice se assustou, mas sua cara foi irremediavelmente de prazer e Clarice teve certeza do que faria.

Alice gozou sem nem que Clarice precisasse entrar nela. Clarice apenas viu, apenas gargalhou (e pensou na falta de habilidade dele que nem devia tê-la feito gozar), beijou Alice na boca e quando sentiu que o corpo de dela se dirigia ao dela como se pedisse para ser dominado, levantou e vestiu a roupa, jogou algum dinheiro na cama e teve certeza: o prazer é sempre a melhor vingança.

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Comentários»

1. Rafael Waltrick - 6 dezembro, 2009

Me pegou de surpresa algumas vezes. O desenrolar e o desfecho foram bem elaborados e fez com que o texto fugisse do lugar comum. Até os últimos momentos, as circunstâncias que levaram à dita desforra são nebulosas, o que mantém o interesse. Fora a sensualidade explícita que excita e prende o leitor (ou foi só comigo isso?). “Retorno” triunfal de Marina Melz.

2. Rodrigo Oliveira - 8 dezembro, 2009

Melz surpreendendo! muito legal a tensão (eu pus um “n” ali né?) gerada até o clímax da cena. Como um preender a respiração e de repente poder soltar, aliviando os ombros. O lance da opção das armas foi muito bacana, como que escolher a melhor forma de se vingar. Cada um com suas armas. Escolheu bem na escolha para atingir o leitor.

3. Fábio Ricardo - 10 dezembro, 2009

Acho que poderia ser um pouco menos menininha. Tá na cara que é um texto escrito por uma mulher. Pra mim, pra falar de puta tem que ser com o pau pra fora, hehehe.

Mas a vingança através do prazer foi muito boa. O lance dela ter conseguido fazer a outra gozar (será?) e o marido não, foi a cereja.


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