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Culpa 5 dezembro, 2009

Posted by Rafael Waltrick in rafael waltrick, vingança.
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Duas doses de uisque e três cubos de gelo.

Deveria ser o suficiente pra me fazer dormir. Mas não hoje.

Ainda estou com a gravata e a camisa de linho que usei no julgamento. A gravata aperta meu pescoço, me sufoca. Em silêncio, estirado na poltrona, o único móvel nessa sala úmida, eu relembro cada instante, cada palavra, cada argumentação, até a decisão final do juiz. O gosto amargo ainda está em minha boca e nem o uísque é capaz de amenizar o sabor repulsivo que eu sinto, impregnado em meu corpo.

A uma hora dessas, o verme deve estar festejando, bebendo e fumando erva às custas da impunidade, com seus amigos vindos direto do esgoto dessa cidade nojenta. Eu sei onde eles se escondem, onde se entregam às mais desprezíveis violações, longe dos olhos da dita sociedade moralista. Eu estive lá antes. Eu vi.

O verme não perde por esperar.

*

Astolfo segura o jornal na mão, os olhos concentrados na página em preto e branco. Ele olha para as linhas datilografadas, levanta os olhos para mim, volta a ler. Eu o ignoro, sentado em minha mesa, preenchendo alguns papéis.

“Você viu isso, Mendonza?”, pergunta.

“Eu não leio jornal.”

“Pois devia. Tem uma foto do teu amigo aqui. Feliz da vida. Saiu pela porta da frente. Que merda, hein?”

“Eu estava lá.”

“Ah, sim, imaginei. Você não ia perder nisso por nada desse mundo, né?”

Ele levanta, pega a caneca onde está escrito FLAMENGUISTA NOTA DEZ e passa por mim, dando um tapinha leve em meu ombro esquerdo. Joga o jornal em minha mesa.

“Relaxa. Isso acontece todo dia. A gente faz o que pode. Mas o que adianta se os putos resolvem mostrar que todo mundo é inocente até que se prove o contrário? Inocente é uma ova. Sistema do caralho.”

Astolfo discursa como se isso tudo realmente tivesse importância pra ele. Eu tenho asco de sua voz, de sua cara, embora nós dois tenhamos sido parceiros por quase dez anos. Ele está quase se aposentando e nada disso mais importa. Ninguém aqui sabe. Ninguém aqui a viu, naquela manhã, quando eu cheguei na beira do rio. Quando eu fechei seus olhos cheios de desespero com a mão. Ninguém sentiu o cheiro da decomposição vindo de seus braços, suas pernas, seu corpo ainda em formação. Não foram eles que bateram na porta da casa dos pais para dar a notícia.

O dia segue sem alterações até a noite. Cinco minutos antes de eu ir embora, um repórter liga dizendo que está fazendo a “ronda” e pergunta se houve alguma ocorrência de destaque. Eu não me dou ao trabalho de responder.

Malditos abutres.

Dirijo sem rumo por algumas horas, os faróis iluminando a escória nas ruas, ansiando por drogas e sexo barato. Algumas das putas abanam para mim, esperançosas de que eu as leve dali, pelo menos por algumas horas. Mas não hoje.

Antes de ir dormir, eu passo na frente da casa do verme. Estaciono o carro a alguns metros e fico apenas observando. A luz do quarto ainda está acesa. Repouso a mão no coldre debaixo de meu casaco.

Ainda não.

*

Melissa me recebe com um sorriso sincero no rosto e me convida pra entrar. Eu devia ter trazido um presente, como sempre. Ela parece não notar o meu deslize e busca um suco de laranja na geladeira, enquanto eu aguardo sentado no sofá da sala. Eles estão terminando de reformar o apartamento. O rapaz não está. Ela volta com meu suco.

“Que pena. O Bruno acabou de sair. Dias desses ainda estava falando como fazia tempo que não te via, Carlos. Cinco minutos e vocês ainda se topavam por aqui.”

“É uma pena mesmo. Mande um abraço pra ele.”

Eu o vi sair e embarcar na moto, em frente ao prédio. Estava ali, no meu carro, há meia hora. Acho que Melissa sabe que eu sempre faço isso, mas não comenta nada. Ela me conhece.

“Tem falado com a mamãe? Ela esteve aqui anteontem. Me ajudou a escolher umas cores pro quarto.”

“Não. Como estão as coisas na faculdade?”, desconverso.

“Ah, indo né. Só vão me pagar bem mesmo a hora que eu terminar a pós. Enquanto isso, vou praticamente pagando pra trabalhar. Mas, é o jeito. Logo as coisas se arrumam. O Bruno foi promovido na concessionária, te contei?”

“Sim.”

Eu fico ali mais dez minutos, até o suco acabar, conversando amenidades. Melissa está bela como sempre, os fios de cabelo caindo sobre os ombros, pretos como os que eu tinha antigamente. Me despeço, com a promessa de que marcaremos um jantar com seu noivo.

Às vezes, eu gostaria que ela me chamasse de pai.

*

Normalmente, nos dias de folga eu vou ao cinema ou passo o dia com alguma puta no quarto que eu alugo próximo ao porto. Mas hoje eu passo as horas em casa, na frente da televisão, apenas trocando de canal, com o som mudo. Penso em Carina. A pequena Carina.

Dentro de alguns dias, os jornais sequer se lembrarão que ela existiu. Na época, foi um circo, como sempre. Agora, ela já está enterrada, e seu assassino, ainda à solta. Mas você tentou, menina. Você tentou. Deu algum trabalho pra ele, enquanto o verme a levava barranco abaixo, no meio dos arbustos. Aposto que gritou e bateu nele, com todas as suas forças, antes que ele a silenciasse com a mãe, rasgasse seu vestidinho vermelho e branco e a violentasse. Você sequer deve ter entendido o que ele estava fazendo. Tão inocente.

Eu sei que tentou, pequena. Eu sei.

Adormeço e, no sonho, seguro ela em meus braços. Ela sorri e se aninha em meu colo, segura, livre de qualquer mal.   

*

A rotina na casa dos pais de Carina parece ter voltado ao normal, embora a dor ainda seja visível no rosto de sua mãe. Ela se levanta todo dia às seis e meia da manhã e fica sentada na cozinha por meia hora, sem comer nada, falar nada, fazer nada. Fica apenas ali, sentada. Aguardando o marido sair da cama para tomar café e ir trabalhar. Eu sei no que ela pensa.

A vontade que eu tenho é de sair do carro, bater na porta e sentar ao lado dela. Não iria dizer nada. Apenas acompanhá-la. Compartilhar sua dor. A dor que eu também sinto, desde que abro os meus olhos pela manhã, a cada minuto do dia. A cada vez que eu passo em frente à casa do verme. Se ela pudesse ver o que eu vejo, a satisfação presente no rosto do verme, a sua liberdade desmedida ao andar pela rua, sem pudor algum… Tenho certeza que ela me pediria pra fazer o que é o certo. Sim. Eu não preciso que ela me peça.

Eu sei no que ela pensa.

*

Lobo me chama na sua sala logo pela manhã, quando me vê entrar na DP.

“Senta aí, Mendonza.”, diz ele, apontando para a cadeira em frente à sua mesa. Eu me sento e cruzo os braços. Ela acende ainda um cigarro antes de olhar pra mim e se sentar também. Pela expressão no seu rosto, imagino qual será o tom da conversa.

“O que você faz fora dessa delegacia não é do interesse meu. Nem podia ser.”, começa. “Mas a partir do momento em que você se põe em risco e me compromete também, sou obrigado a intervir. Você sabe do que eu estou falando, não?”

Eu fico calado. A fumaça do cigarro sai por meio de baforadas apressadas dos dentes amarelados dele.

“Todo mundo aqui ficou puto com o resultado do julgamento daquele escroto. Mas nós dois, eu e você, Mendonza, já temos anos e anos de casa, e sabemos que é assim mesmo. Nós prendemos, a justiça manda soltar. Nós esfregamos as provas nas caras deles, eles dizem que elas são ‘inconsistentes’. Paciência. Eu não gosto disso. Sei que você também não. Mas o nosso trabalho termina aqui. Ou até que o dito inocente faça outra cagada e nos obrigue a provar que os fudidos dos juízes estavam errados mesmo. Mas, enquanto isso, o que podemos fazer é aceitar o que esses putos decidiram e deixar que os promotores ou quem quer que seja tentem convencê-los do contrário.”

Apenas concordo com a cabeça. Lobo olha pra mim com impaciência, como se esperasse que eu discutisse ou irrompesse em um ataque de fúria contra a injustiça cometida fora daqui. Minha indiferença o deixa mais nervoso ainda.

“Você é um dos melhores investigadores que eu tenho aqui nessa bagaça. Tem os seus problemas, mas quem não tem? Eu só não posso deixar que você continue com essa merda. Aparecendo todo santo dia na porra da casa do cara, de manhã, de noite, a hora que seja. E, além do mais, nem fazendo questão que ele não te veja! Que merda é essa?”

“Estou fazendo o meu trabalho, doutor.”

“O teu trabalho? Você tá louco, é isso? O teu trabalho é aqui dentro. E você não tem mais nada a ver com aquele puto. Se decidiram soltar o cara, não é problema nosso.”

“Ele é culpado. O senhor sabe disso. Ele vai fazer de novo. Eu sei que vai.”

Lobo abaixa a cabeça e passa as mãos pelo cabelo ralo. Respira fundo. O cigarro está no fim, quase queimando seus dedos, mas ele não nota.

“Escuta aqui, Mendonza. Eu sei que foi uma puta injustiça com a guria, com o teu trabalho. Mas você é um profissional. Não pode se envolver assim. Porra, eu nem precisava tá te falando isso! Que merda! O advogado dele me ligou ontem aqui dizendo que vai meter um processo contra a gente porque um policial está coagindo o cliente dele. Isso sem dizer nas outras merdas que eles já tinham engatilhado, danos morais, essas coisas todas. Agora, o cara vai comprar verdura no mercado e tá lá a porra do policial atrás. Vai na farmácia e o cara tá do outro lado da rua. Vai dormir e a merda do carro do policial tá estacionado na esquina! Caralho! Eu te proíbo de chegar perto desse puto, Mendonza! Filho da puta, cigarro do caralho!”

Lobo joga a bituca no chão mesmo, ao lado da mesa. Agita os dedos queimados. Levanta e dá as costas pra mim, olhando pela persiana para o pátio da delegacia.

Volta a me encarar.

“Se você não tá conseguindo lidar com essa situação, eu te dou uns dias de folga e você vai arejar a cabeça longe daqui. Sei lá, vai pra praia, se enfia no teu apartamento, mas se mantém longe daquele puto. Você tem vida própria, deve ter. Eu disse pra aquele advogado de porta de cadeia que ele e nem o cliente dele iam mais se incomodar. Entendeu?”

Eu faço que sim com a cabeça e, antes que ele possa dizer mais algo, me levanto e saio da sala, em silêncio.

*

“Fazia um bom tempo que a gente não se via, hein, querido?”

Rosana cheira a perfume barato, loção de babosa e vodka. Ela se joga no colchão manchado, em cima da cama, e desamarrra o laço que mantém os cabelos castanhos presos sobre a cabeça. A pele negra dela fica à mostra, encoberta apenas por uma mini saia minúscula e uma blusa regata. Pergunta se eu tenho alguma bebida pra oferecer. Eu digo que não.

“E o que você trouxe nessa bolsa aí, meu anjo?”

“Uma coisa pra você usar.”

Ela me encara com curiosidade, as mãos apoiadas no colchão, as pernas abertas, convidativas.

“Adoro quando você faz os seus joguinhos. Vem cá , vem, meu homem, vem. Só de te ver assim, de pé na minha frente, você já me deixa com tesão.”

Rosana senta à beira da cama e abre o zíper da minha calça. Meu pau some dentro de sua boca, enquanto ela usa as mãos para abaixar o jeans. Eu sinto nojo e aversão, mas deixo que ela cumpra seu papel, até que a afasto e faço com que deite na cama. Pego o conteúdo da bolsa e jogo na direção dela.

“Vista isso.”

“Humm… meio pequenas pra mim, não?”

“Vai logo.”

“Tá bom, tá bom.”

Ela veste o pequeno vestido com dificuldade, contrariada.

“Essa calcinha não vai entrar nunca… e não precisa também, né? Pronto. Não sabia que você gostava dessas coisas. Tá bom assim? Você quer que eu fale alguma coisa em especial também? Essa menininha é toda sua, querido.”

Eu tiro a calça e a cueca e avanço sobre ela. Rosana se agarra em mim e geme alto, enquanto eu meto nela. Enlaça as pernas em volta da minha cintura e agarra o meu pescoço.

“Nossa, isso, vai, mete, mete, forte, isso…”

Eu ignoro a voz dela e penso naquela noite, às margens do rio. O delicado vestinho vermelho e branco sendo rasgado, para que a inocência intocada daquela pequena criança fosse violada pelos desejos doentios do verme. Ele a subjuga e deita por cima dela, o membro duro invadindo o corpo de anjo. Ela grita, pede socorro, Rosana grita, chora, mas ninguém a ouve. Ninguém presta ajuda. Ela está sozinha. Sob o controle total do verme, que leva as mãos até o seu pescoço delicado e aperta, esgana, até a deixar sem ar,

Pobre menina. O verme continua a saciar sua vontade, no corpo já sem vida. Instantes depois, ele pega o que restou da criança e a joga no rio, bastante cheio àquela época do ano. Some. Ninguém o vê sair. Volta para casa, crente de que irá permanecer impune.

Mas não vai. Não, pequena, ele não vai.

Saio do apartamento e deixo Rosana para trás. Não me preocupo em trancar a porta. Quando a acharem, não vai importar mais.

*

O verme me vê entrar pelo corredor e eu tenho que disparar um tiro pra impedir que ele corra até os fundos. Eu o atingo na coxa direita e ele se joga de encontro à parede, batendo com a cara na divisória de compensado. Os seus gritos ecoam pela casa, saindo pela janela aberta do quarto. Eu não me preocupo em ser discreto. Agarro seu colarinho e o levo até a cozinha, arrastado. O verme tenta se agarrar aos móveis, em vão. Berra como o porco imundo que sabe que está sendo levado para o abate.

“O que você quer? Me solta, me solta, ME SOOOOOOOOOLTAAAAAA!!!”

“Cala a boca, verme.”

Eu o encosto contra a pia e miro o revólver calibre 32 contra a sua cabeça. Ele chora, virando o rosto para o lado.

“Você achou que ia se dar bem, não é verme?”

“Que merda você tá falando? Escuta, eu sou inocente, não tenho nada a ver com aquela menina… você não pode fazer isso, não pode…”

O sangue salta contra a portinhola branca quando eu o atinjo com o cano da arma na testa. Escuto o som das freadas na frente da casa, as sirenes e os passos apressados. Eles chegaram rápido.

Melhor assim.

“Não me mata, por favor, não, não, não…”

“Tarde demais, verme.”

A porta da entrada é derrubada, atrás de nós. Dois segundos depois, o som do tiro.

Descanse em paz, pequena.

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Comentários»

1. Rodrigo Oliveira - 8 dezembro, 2009

Bem bacana. Puxa pra uma narrativa bem noir, mas por algum motivo fica a um meio termo entre o noir e policial clássico tradicional. Um q de rubem fonseca, talvez? Curti. Tudo podre, cidade, protagonista, antagonista, o cara indo na casa da filha “se despedir”… mandou bem.

2. Fábio Ricardo - 10 dezembro, 2009

Achei muito bom, bem descritivo e com diálogos realistas. O mais dificil neste tipo de texto são os diálogos, creio eu. Ando lendo muita coisa que demonstra ser amadora justamente por causa dos diálogos. Aqui não, eles tem consistência, eles têm força.
Mandou muito bem, um conto policial dos bons, cheios de dores amargas no peitoe detalhes que só um repórter poderia levantar.


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